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[aStro-LáBio]°² = [diáRio de boRdo]°²

o tempo de uma gaveta aberta
é o tempo de uso de uma gaveta aberta
é o tempo de uma gaveta em uso
agora fechada a gaveta guarda
o tempo para trás levou
e não volta mais: voou





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érica zíngano | francine jallageas | ícaro lira | lucas parente

domingo, 24 de outubro de 2010






Sessão Astro-Lábio
28/outubro.
21horas
       
Plano B
R. Francisco Muratori.  2A  
Lapa - RJ



deserto - francine jallageas - rio de janeiro (2009).
logopéia - ícaro lira - rio de janeiro/buenos aires (2009).
hoje - alessandra colasanti - rio de janeiro (2010).
carta número 2 ou medo de voar - lucas parente - barcelona (2009).
anymore - mariana smith - são paulo/fortaleza (2008).

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

: je suis un peu ailleurs maintenant. si tu peux me rappeler un autre jour... c'est mieux.
: ok
ailleurs en berbère sa veut dire la lune

POR QUE EU AMO A FRANÇA, por Leonard Cohen

Ó França, você deu sua língua aos meus filhos, seus amantes e seus cogumelos à minha mulher. Você cantou minhas canções. Você entregou meu tio e minha tia aos Nazistas. Eu conheci o peito de veludo da polícia na Praça da Bastilha. Eu tirei dinheiro dos comunistas. Eu deixei a minha meia-idade na cidade leitosa de Luberon. Eu corri dos cães de guarda numa estrada ao redor de Rousillon. Minha mão treme na terra da França. Eu vim até você com uma asquerosa filosofia de santidade, e você me deu banho e me fez sentar para uma entrevista. Ó França, onde eu fui levado tão a sério, que tive que reconsiderar minha posição. Ó França, qualquer messias chinfrim te agradece por sua própria solidão. Eu quero estar noutro lugar, mas eu estou sempre na França. Seja forte, seja nuclear, minha França. Flerte com todos os lados, e fale, fale, nunca pare de falar sobre como viver sem Deus.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

yes, I do

domingo, 17 de outubro de 2010


no caso de saudade, se formos por acaso substituir, acho melhor "añoranza" que "nostalgia".

sábado, 16 de outubro de 2010

sexta-feira, 15 de outubro de 2010


---------- Mensagem encaminhada ----------
De: tavinho paes <tavinhopaes@gmail.com>
Data: 13 de outubro de 2010 09:50
Assunto: Re: VIRAM NA TV!!!!!!!!! A POESIA QUE SAIU DO TÚMULO!!!!!! vivinha da silva



nÃO DÁ ... TENHO QUE COMPARTILHAR COM TODO MUITO ... FOI MUITO FORTE PRA MIM E PARA O MOMENTO QUE VIVO!!! CARAMBA!!!

2010/10/13 tavinho paes
<tavinhopaes@gmail.com> JOÃO,

acho que vou voltar com tudo depois de estar assistindo a esta hora 03:10h o resgate dos mineiros do Chile...
Primeiro que aquilo  era como sair de uma tumba vivo...
(tô quase chorando ... vi neste sinal de vídeo, sem importância para a reportagem, um sinal de iluminação ... vou sair da crise já!)

saiu o primeiro ... ora, que beleza!
... mas, o segundo deles, Mario Sepulveda Spinace, sai doze minutos depois... 
... sai rindo, fazendo piadas, cheio de alegria... 
... um cara bonitão ... parece até o Tico quando ele estava careca... 
... abraça todo mundo ... vibra ... cheio de energia.

... aí, uma revelação simples que passou desapercebida da reportagem ao vivo da CNN!

... o cara abraçou todo mundo (até a presidenta) ... entre eles estão os avós 
... aí, sem que os repórteres prestassem atenção e fizessem comentários, ele tira do bolso um livrinho de capa negra e entrega para a avó, dizendo que se não fosse aquele livro ele não teria aguentado nem teria estimulado seus colegas a se manterem vivos, enterrados a 290 metros, por 3 meses!!! 
... ela pega o livretinho e diz: no te dices que este libro te salvaria la vida! ... e os dois riram! 
... depois o cara foi pro hospital e se livrou dos jornalistas ocupados com a tragédia!
... nenhum repórter se deu conta do pequeno ato, mas seu amigo aqui viu aquilo e entrou em extase!
... reconheci aquela capa negra ... o sol que tem e o título grande, visível na TV ... eu já tive aquele livro, nos tempos de universidade, roubado da MURO, hoje Travessa (ele sumiu) ... parecia uma bíblia, mas não era ... era de um livro de ... adivinhe!!!
...poesia!!!

João, aquele livro de capa preta que saiu do bolso empoeirado do mineiro resgatado (deu pra ler o título na segunda vez - replay  que passou) era LA GRUTA DEL SILENCIOdo chileno Vicente Huidobro...
... o Chile lê muita poesia (é obrigatória como materia desde o primário) e não é à-toa que tem 2 nobels de literatura e os dois são poetas - Gabriela Mistral e Pablo Neruda!

aí vai um dos poemas que achei na web, daquele livro



"Arte poética"
Que el verso sea como una llave
Que abra mil puertas.
Una hoja cae; algo pasa volando;
Cuanto miren los ojos creado sea,
Y el alma del oyente quede temblando.
Inventa mundos nuevos y cuida tu palabra;
El adjetivo, cuando no da vida, mata.
Estamos en el ciclo de los nervios.
El músculo cuelga,
Como recuerdo, en los museos;
Mas no por eso tenemos menos fuerza:
El vigor verdadero
Reside en la cabeza.
Por qué cantáis la rosa, ¡oh Poetas!
Hacedla florecer en el poema ;
Sólo para nosotros
Viven todas las cosas bajo el Sol.
El Poeta es un pequeño Dios.




Vicente Huidobro

peruano clandestino

¡Dulzura por dulzura corazona!
¡Dulzura a gajos, eras de vista,
esos abiertos días, cuando monté por árboles caídos!
Así por tu paloma palomita,
por tu oración pasiva,
andando entre tu sombra y el gran tezón corpóreo de tu sombra.

Debajo de ti y yo,
tú y yo, sinceramente,
tu candado ahogándose de llaves,
yo ascendiendo y sudando
y haciendo lo infinito entre tus muslos.
(El hotelero es una bestia,
sus dientes, admirables; yo controlo
el orden pálido de mi alma:
señor, allá distante... paso paso... adiós, señor...)

Mucho pienso en todo esto conmovido, perduroso
y pongo tu paloma a la altura de tu vuelo
y, cojeando de dicha, a veces,
repósome a la sombra de ese árbol arrastrado.

Costilla de mi cosa,
dulzura que tú tapas sonriendo con tu mano;
tu traje negro que se habrá acabado,
amada, amada en masa,
¡qué unido a tu rodilla enferma!

Simple ahora te veo, te comprendo avergonzado
en Letonia, Alemania, Rusia, Bélgica, tu ausente,
tu portátil ausente,
hombre convulso de la mujer temblando entre sus vínculos.

¡Amada en la figura de tu cola irreparable,
amada que yo amara con fósforos floridos,
quand on a la vie et la jeunesse,
c'est déjà tellement!

Cuando ya no haya espacio
entre tu grandeza y mi postrer proyecto,
amada,
volveré a tu media, has de besarme,
bajando por tu media repetida,
tu portatil ausente, dile así...

*

En suma, no poseo para expresar mi vida, sino mi muerte.
Y, después de todo, al cabo de la escalonada naturaleza y del gorrión en bloque, me duermo, mano a mano con mi sombra.
Y, al descender del acto venerable y del otro gemido, me reposo pensando en la marcha impertérrita del tiempo.
¿Por qué la cuerda, entonces, si el aire es tan sencillo? ¿Para qué la cadena, si existe el hierro por sí solo?
César Vallejo, el acento con que amas, el verbo con que escribes, el vientecillo con que oyes, sólo saben de ti por tu garganta.
César Vallejo, póstrate, por eso, con indistinto orgullo, con tálamo de ornamentales áspides y exagonales ecos.
Restitúyete al corpóreo panal, a la beldad; aroma los florecidos corchos, cierra ambas grutas al sañudo antropoide; repara, en fin, tu antipático venado; tente pena.
¡Que no hay cosa más densa que el odio en voz pasiva, ni más mísera ubre que el amor!
¡Que ya no puedo andar, sino en dos harpas!
¡Que ya no me conoces, sino porque te sigo instrumental, prolijamente!
¡Que ya no doy gusanos, sino breves!
¡Que ya te implico tánto, que medio que te afilas!
¡Que ya llevo unas tímidas legumbres y otras bravas!
Pues el afecto que quiébrase de noche en mis bronquios, lo trajeron de día ocultos deanes y, si amanezco pálido, es por mi obra: y, si anochezco rojo, por mi obrero. Ello explica, igualmente, estos cansancios míos y estos despojos, mis famosos tíos. Ello explica, en fin, esta lágrima que brindo por la dicha de los hombres.
¡César Vallejo, parece
mentira que así tarden tus parientes,
sabiendo que ando cautivo,
sabiendo que yaces libre!
¡Vistosa y perra suerte!
¡César Vallejo, te odio con ternura!


cesar vallejo

segunda-feira, 11 de outubro de 2010



Joseph Beuys (photographed by Caroline Tisdall).

Beuys completing the Brain of Europe drawing for his Hearth installation at the Royal Feldman Gallery, New York 1975 (photographed by Caroline Tisdall).

Beuys at Sandycove, where James Joyce lived before leaving Ireland for Europe (photographed by Caroline Tisdall).

Beuys investigating the plant life of Ireland, November 1974 (photographed by Caroline Tisdall).

Performing Celtic (Kinloch Rannoch) Scottish Symphony, 1970 (photographed by Richard Demarco).

Beuys at the Giant’s Causeway, Antrim, Northern Ireland, c.1970 (photographed by Caroline Tisdall).

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

o porquê das máscaras

Quem vêoutem cara não temnemvê coração.

terça-feira, 5 de outubro de 2010


sexta-feira, 1 de outubro de 2010

viajar, perder países

Há alguns anos começaram a aparecer uns grafites misteriosos nos muros da cidade nova de fez, no Marrocos. Descobriu-se que quem os desenhava era um vagabundo, um camponês emigrado que não havia se integrado à vida urbana e que, para orientar-se, rabiscava itinerários de seu próprio mapa secreto, sobrepondo-os à topografia da cidade moderna, que lhe era estranha e hostil.
     minha ideia, ao iniciar este livro contra a vida estranha e hostil, é trabalhar de forma parecida à do vagabundo de fez, ou seja, tentar me orientar no labirinto do suicídio traçando o itinerário de meu próprio mapa secreto e literário, e esperar que este coincida com o que tanto atraiu meu personagem favorito, aquele romano de quem Savino, em Melancolia Hermética,  nos diz que, grosso modo, viajava em princípio na mais completa  nostalgia, mais tarde foi invadido por uma tristeza debochada, depois buscou a serenidade helênica e, finalmente - "Tentem, se puderem, deter um homem que viaja com seu suicídio pendurado na lapela" , dizia Rigaut -, deu-se uma morte digna, e o fez de maneira ousada, como protesto por tanta estupidez e na plenitude de uma paixão, pois não desejava diluir-se na obscuridade com o passar dos anos.
       "viajo para conhecer minha geografia", escreveu um louco, no começo do século, nos muros de um manicômio françês. E isso me leva a pensar em pessoa ("viajar, perder países") e a parafraseá-lo:
Viajar, perder suicídios; perdê-los todos. Viajar até que se esgotem no livro as nobres opções de morte que existem. E então, quando tudo estiver termindao, deixar que o leitor proceda de forma oposta e simétrica à do vagabundo de Fez e, com certa loucura cartografica atue como Opicinus, um sacerdote italiano do início do século XIV, cuja obsessão era interpretar o significado dos mapas, projetar seu próprio mundo interior sobre eles - não fazia mais que desenhar a forma do litoral mediterrâneo na extensão e na largura, sobrepondo às vezes o desenho do memso mapa orietado de outra maneira, e nesses traçados geográficos desenhava personagens de sua vida e escrevia suas opiniões sobre qualquer tema -, ou seja, deixar que o leitor projete seu próprio mundo interior sobre o mapa secreto e literário deste itinerário moral que aqui mesmo já nasce suicidado.




Suicídios exemplares.
Enrique Vila-Matas

domingo, 26 de setembro de 2010







Maria Tereza Horta



Como em Fulgor (1)

Tacteio à minha
volta
e é só fulgor
Tento deslumbrar
o sol que cega
Demoro-me demasiado
no calor
Para a minha sede
Nenhuma água chega



 Segredo (3)


Não contes do meu

vestido
que tiro pela cabeça
nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa 
deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço
Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar
nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar



Modos de amar 


Modo de amar – I

Lambe-me as seios
desmancha-me a loucura

usa-me as coxas
devasta-me o umbigo

abre-me as pernas
põe-nas nos teus ombros

e lentamente faz o que te digo:

Modo de amar – II

Por-me-ás de borco,
assim inclinada...

a nuca a descoberto,
o corpo em movimento...

a testa a tocar
a almofada,
que os cabelos afloram,
tempo a tempo...

Por-me-ás de borco;
Digo:
ajoelhada...

as pernas longas
firmadas no lençol...

e não há nada, meu amor,
já nada, que não façamos como quem consome...

(Por-me-ás de borco,
assim inclinada...

os meus seios pendentes
nas tuas mãos fechadas.)

Modo de amar – III

É bom nadar assim
em cima do teu corpo
enquanto tu mergulhas já dentro do meu

Ambos piscinas que a nado atravessamos
de costas tu meu amor
de bruços eu

Modo de amar – IV

Encostada de costas
ao teu peito

em leque as pernas
abertas
o ventre inclinado

ambos de pé
formando lentos gestos

as sombras brandas
tombadas no soalho

Modo de amar – V

Docemente amor
ainda docemente

o tacto é pouco
e curvo sob os lábios

e se um anel no corpo
é saliente
digamos que é da pedra
em que se rasga

Opala enorme
e morna
tão fremente

dália suposta
sob o calor da carne

lábios cedidos
de pétalas dormentes

Louca ametista
com odores de tarde

Avidamente amor
com desespero e calma

as mãos subindo
pela cintura dada
aos dedos puros
numa aridez de praia
que a curvam loucos até ao chão da sala

Ferozmente amor
com torpidez e raiva

as ancas descendo como cabras
tão estreitas e duras
que desarmam
a tepidez das minhas
que se abrem

E logo os ombros
descaem
e os cabelos

desfalecem as coxas que retomam
das tuas
o pecado
e o vencê-lo
em cada movimento em que se domam

Suavemente amor
agora velozmente

os rins suspensos
os pulsos
e as espáduas

o ventre erecto
enquanto vai crescendo
planta viva entre as minhas nádegas

Modo de amar – Vl

Inclina os ombros
e deixa
que as minhas mãos avancem
na branda madeira

Na densa madeixa do teu ventre

Deixa
que te entreabra as pernas
docemente

Modo de amar – VII

Secreto o nó na curva
do meu espasmo

E o cume mais claro
dos joelhos
que desdobrados jorram dos espelhos

ou dos teus ombros os meus:
flancos
na luz de maio

Modo de amar – VIII

Que macias as pernas
na penumbra

e as ancas
subidas
nos dedos que as desviam

Entreabro devagar
a fenda – o fundo
a febre
dos meus lábios

e a tua língua
Vagarosa:

toma – morde
lambe
essa humidade esguia

Modo de amar – IX

Enlaçam as pernas
as pernas
e as ancas

o ar estagnado
que se estende
no quarto

As pernas que se deitam
ao comprido
sob as pernas

E sobre as pernas vencem o gemido

Flor nascida no vagar do quarto

Modo de amar – X

A praia da memória
a sulcos feita
a partir da cintura:

a boca
os ombros

na tua mansa língua que caminha
a abrir-me devagar
a pouco e pouco

Globo onde a sede
se eterniza
Piscina onde o tempo se desmancha
a anca repousada
que inclinas
as pernas retezadas que levantas

E logo
são os dentes que limitam

mas logo
estão os labios que adormentam
no quente retomar de uma saliva
que me penetra em vácuo
até ao ventre

o vínculo do vento
a vastidão do tempo

o vício dos dedos
no cabelo

E o rigor dos corpos
que já esquece
na mais lenta maneira de vencê-los

Modo de amar – XI
((Teu) Baixo ventre)


Nunca adormece a boca no
teu peito

a minha boca no teu baixo
ventre
a beber devagar o que é
desfeito

Modo de amar – XII
(Os testiculos)


Tenho nas mãos
teus testiculos
e a boca já tão perto

que deles te sinto
o vício
num gosto de vinho aberto

Modo de amar – XIII
(As pedras – As pernas)


São as pedras
meus seios
São as pernas

pele e brandura
no interior dos
lábios

rosa de leite
que sobe devagar
na doce pedra
do muco dos meus lábios

São as pedras
meus seios
São as pernas

Pêssegos nus corpo
descascados

Saliva acesa
que a língua vai cedendo

o gozo em cima...
na pedra dos meus
lábios

Jogo do corpo
a roçar o tempo
que já passado só se de memória,
a mão dolente
como quem masturba entre os joelhos...
uma longa história...

Estrada ocupada
onde se vislumbra
(joelhos desviados na almofada )

assim aberta o fim de que desfruta
o fruto do odor
o fundo todo
do corpo já fechado.

Modo de amar – XIV
(As rosas nos joelhos)


São grinaldas de rosas
à roda
dos joelhos

O âmbar dos teus dentes
nos sentidos

O templo da boca
no côncavo do espelho
onde o meu corpo espia
os teus gemidos

É o gomo depois...
e em seguida a polpa...

o penetrar do dedo...
O punho do punhal

que na carne enterras
docemente
como quem adormenta
o que é fatal

É a urze debaixo
e o fogo que acalenta
o peixe
que desliza no umbigo

piscina funda
na boca mais sedenta bordada a cuspo
na pele do umbigo

E se desdigo a febre
dos teus olhos
logo me entrego à febre
do teu ventre

que vai vencendo
as rosas – os escolhos
à roda dos joelhos, docemente.

Modo de amar – XV
(A boca – A rosa)


Entreabre-se a boca
na saliva da rosa

no raso da fenda
na fissura das pernas

Entreabre-se a rosa
na boca que descerra
no topo do corpo
a rosa entreaberta

E prolonga-se a haste
a língua na fissura
na boca da rosa
na caverna das pernas

que aí se entre-curva
se afunda
se perde

se entreabre a rosa
entre a boca
das pétalas

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

5

prometi a mim mesmo que hoje não escreveria, só leria. li muito e não agüento. cá estou aos oitenta e de vista cansada, bagos frouxos, boca murcha.um excesso de hilda é que me empresta os bagos. perco pudores que ainda restam com hilda que é baixa e suja agora.sofro duma incontinência literária, breve uma urinária me aguarda por suposto, e não bem com escatologias mas é a tentativa de tragar tudo quanto engulo, deglutir tudo quanto cabe numa boca de dente pouco mas sempre insisto em ser em mim, uma tristeza, uma bosta. descobri que segurar o texto um muito é como um orgasmo (mesmo velho e macambúzio gozo) quando depois duma certa espera, vem maior.tenho preferência por ninfetos ágeis e esguios no botão da idade e que me lembrem a mim quando no mesmo tempo posto que é como voltar e pudesse voltava, velho e cansado só por circustância. seduzo velhinhas, faço um sucesso fodido no dentadura-sport-club vulgo bolero-de-terceira-idade . como as velhas por certa verve geni e os ninfetos por gosto, justos. nifetos são mais difíceis e velhas são viúvas e carentes mas isso não importa. o jornal me andou falando e a rádio e os livros. Todos agora falam com velhos, uma crise qualquer na consciência social por marginalizar a velharia e iniciam justo no meu calo, uma tristeza.queria escrever pra todos mas são tantos e nem poderia, uma coleção extensa de pendência em cartas, uma centena que devo ao mundo e só posso responder da minha melhor maneira, escrevendo assim num modus operandi obliquo que leva já toda uma vida e digo isso aquela dos sapatos de crochê pra nenês “e porque que o mundo ia falar com você?”não sei mas falou, agora deve já ter desistido e eu que vejo mais além. velho e paranóico. escrevo desde os cinqüenta e nove quando houve o acidente e perdi uns bons três centímetros da perna esquerda. É por aí, velho e manqueta. todos os dias me debruço no umbigo e vou repuxando uns cordões umbilicais pelo quarto todo até estar teia tétricofágica, fagossimbiótica com mundo de eu do mundo, uma nojeira.Escrevo tratando as palavras na chinela, faço de brinquedo e desentranho elas dos confins de nem-sei-lá e das palavras dos murais do mundo. é de ficar tão à vontade que erro com eram mesmo e vai tudo torto pra ser lido, mas não é pra ser lido é pra ser engolido que escrevo e que erro. velho e ruim de hortografia. engulo tudo quanto me passa pela frente e depois me vão dizer que é sem critério, mas vomito tudo e só depois posso ver e gosto é como rabo já se diz por aí, sendo assim não me fodas ora porra, pois sim, velho e glutão. vou de Brasília pela rua escura de velho e notívago que sou, um porre ao volante e tento ando na rua que até me sabem as putas pelo nome e fazendo charadas sobre o que eu havia dito de amarelinhas e dor na lombar, sempre velho e vadio vou. escrevo na primeira pessoa pra primeira segunda terceira e quarta. tudo sempre de quinta. e me vem dizer que faço diários. mas diários não, minha vida passa mas literatura resta, sabes? expurgo qual pus e tudo que me sai desde a tal data é letra. “velho e fazendo diários” mas diários não, filhas da puta. posso até xingar, adoro a hilda. velho e transgressor só porque me atraso horas, anos. até transgredir é coisa de velho, vê? lhe diga o oiticica que só não ficou velho porque morreu de tanto bacon antes. Sonho com cavalos e centauros dum texto dum cara vivo tal renan e acordo de pau à pino ainda que velho, o que deveria ser um ponto alto, mas depois me vão dizer perverso. velho e velhaco.