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[aStro-LáBio]°² = [diáRio de boRdo]°²

o tempo de uma gaveta aberta
é o tempo de uso de uma gaveta aberta
é o tempo de uma gaveta em uso
agora fechada a gaveta guarda
o tempo para trás levou
e não volta mais: voou





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érica zíngano | francine jallageas | ícaro lira | lucas parente

terça-feira, 21 de setembro de 2010

4

Nas adjacências da casa é que me perco. Me deixo girar quarteirões ao acaso como se pudesse afinando um movimento concêntrico, descrevendo espirais anguladas com os passos, propor um cerco à ser gradualmente refinado. Até que se possa girar o entorno da casa e ir parar à porta. Até que se possa girar o entorno dum corpo dentro da casa. Observo os 360 graus que descrevo em torno do corpo e o refinamento vem afinando em pormenores;

As calçadas, as fachadas, o asfalto, as árvores, os outdoors

A raiz da árvore descolando cimento ou asfalto, o panfleto do templo de iemanjá, a ranhura no paralelepípedo que é divisa entre calçada e rua, o neon do câmbio change piscando numa vitrine, as flores feias dum arbusto de espinhos à direita.

A porta da casa e janela entreabertas e o reboco frouxo de ambas, a tinta amarelida de tinta grossa indício de demãos anteriores, as rachaduras da pintura de cal nas paredes da casa, a jardineira fula de mato espesso cheirando abandono, os degraus de mármore cinza-rajado craquelando que antecedem a porta.

O corpo, atenção ao sinuoso da coluna, os olhos calmos de quem se sabe objeto de estudo, o risco no cenho acima do olho esquerdo, a barba e bigode escuros quase negros, os dedos longos e afoitos a boca entreabrindo e mordiscando um lábio inferior vermelho, os cabelos sujos pregados à testa alta de idéia solta e o esguio do corpo de pouca carne.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

anatomia da musa, josé paulo paes

http://www.flickr.com/photos/flofloto2007/

o encontro inesperado do diverso

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pág 13
(...)

      a minha vida é como essa luz que deixa passar claridade para o outro aposento. por isso, é conforme a este dia, ao outro, ao dia seguinte,
e produz semelhança, sem o ónus da monotonia. tenho a sensação de deixar espalhados  pela casa, e pelos móveis,
pedaços simples de textos livres que, de antemão, nunca serão um livro.
      encontrei este escrito ontem, depois de ter lavado a loiça:_______________________ abriu-se uma chaga no pé de eleanora;
uma ferida de amor que ela lê como sinal de que está pronta para se levantar,
pousar o bordado com o desenho do falcão,
e partir. " o pano que bordo, doz-me ela, é a parte mais leve dessa ave. distingo nitidamente vários pontos da realidade.
descubro, ao abrir a porta da despensa, que a arte de fazer-me mulher é deixar crescer, na minha sombra, o meu outro igual de poder.
Luís M diz-me no amor; " dá-me a tua vontade, que eu te darei a força".
olho-me ao espelho, e se o seu reflexo me mandasse reiniciar o bordado ________________.
     "sabes quem é o falcão?", interrompo-a.não me ouve, e responde-me que deve esperar o amor, que são diferentes os ritmos do sono e mutáveis os rostos do amor.
     uma ansiedade tranquila toma-nos de cima, e alguém nos vem chamar; "são horas de jantar" . eleanora ri. " são horas de jantar, ou de partir para quem amo?"





llansol, maria gabriela
lisboaleipzig 1

domingo, 19 de setembro de 2010

144


 
         Depois dos dias todos de chuva, de novo o céu traz o azul, que escondera, aos grandes espaços do alto. Entre as ruas, onde as poças dormem como charcos do campo, e a alegria clara que esfria no alto, há um contraste que torna agradáveis as ruas sujas e primaveril o céu de inverno baço. É domingo e não tenho que fazer. Nem sonhar me apetece, de tão bem que está o dia. Gozo-o com uma sinceridade de sentidos a que a inteligência se abandona.
         Passeio como um caixeiro liberto. Sinto-me velho, só para ter o prazer de me sentir rejuvenescer.
         Na grande praça dominical há um movimento solene de outra espécie de dia. Em São Domingos há a saída de uma missa, e vai principiar outra. Vejo uns que saem e os que ainda não entraram, esperando por alguns que não estão vendo quem sai.
         Todas estas coisas não têm importância. São, como tudo no comum da vida, um sono dos mistérios e das ameias, e eu olho, como um arauto chegado, a planície da minha meditação.
         Outrora, criança, eu ia a esta mesma missa, ou porventura à outra, mas devia ser a esta. Punha, com a devida consciência, o meu único fato melhor, e gozava tudo - até o que não tinha razão de gozar. Vivia por fora e o fato era limpo e novo. Que mais quer quem tem que morrer e o não sabe pela mão da mãe?
         Outrora gozava tudo isto, por isso é só agora, talvez, que compreendo quanto o gozava. Entrava para a missa como para um grande mistério, e saía da missa como para uma clareira. E assim é que verdadeiramente era, e ainda verdadeiramente é. Só o ser que não crê e é adulto, com alma que recorda e chora, são a ficção e o transtorno, o desalinho e a lajem fria.
         Sim, o que eu sou fora insuportável, se eu não pudesse lembrar-me do que fui. E esta multidão alheia que continua ainda a sair da missa, e o princípio da multidão possível que começa a chegar para entrar para a outra - tudo isto são como barcos que passam por mim, rio lento, sob as janelas abertas do meu lar erguido sobre a margem.
         Memórias, domingos, missas, prazer de haver sido, milagre do tempo que ficou por ter passado, e não esquece nunca porque foi meu… Diagonal absurda das sensações normais, som súbito de carruagem de praça que soa rodas no fundo dos silêncios ruidosos dos automóveis, e de qualquer modo, por um paradoxo maternal do tempo, subsiste hoje, aqui mesmo, entre o que sou e o que perdi, no antero olhar de mim que sou eu…





Bernardo Soares - Livro do Desassossego

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

 Ps. 

"Todas as personagens de Tchekhov tropeçam nas pedras porque não
conseguem tirar os olhos das estrelas" (Nabokov)





domingo, 12 de setembro de 2010

Entre a constelação e a nebulosa : passagens :

 

Ansié la dispersión de las duras constelaciones, esa súcia propaganda luminosa del Trust Divino Relojero. (Julio Cortázar, Rayuela, cap. 67).

 

Trechos d’Un livre blanc (Philipe Vasset) :

...

Je m’abandonnis alors au plaisir d’être nulle part, m’imaginant pour quelques heures soustrait à l’emprise de la surveillance urbaine et savourant, au milieu des ordures et des herbes folles, un paradoxal sentiment d’intimité et de confort. Puis, déterminé à ce que quelque chose apparaisse, je revenais, parfois à chaque visite les modifications du paysage et les retraits et les avancées de la ville, qui déferlait sur les friches comme la mer sur l’estran. (95)

 

[…]

 

J’étais dans les zones blanches comme avant le surgissement du texte, dans un grand vide où rien ne se fixe, où les expressions les plus contradictoires passent et repassent sans interférence et, au lieu de chercher à m’en extraire, je me complaisais dans cette languide plénitude infra-langagière, retardant au maximum le moment où un concept, une intuition finirait par polariser la langue. (101)

 

[…]

 

(les cuves, silos et autres châteaux d’eau sont le reflet inversé des zones blanches : visibles à des kilomètres, ils restent malgré tout fermés, opaques et mystérieux, alors que les terrains vagues, imperceptibles sans le filtre de la carte, s’offrent sans difficulté une fois localisés. Réservoirs et friches pourraient constituer les parties émergées d’une même entité, une poche souterraine d’histoires et de noms dont la masse gonfle et creuse le paysage). (109)

 

[…]

 

Mais, tandis que je progressais, des brèches s’ouvraient en enfilade, des bâtiments entiers, des rues, apparaissaient puis disparaissaient, et partout se glissaient des ombres furtives : c’etait comme si j’avais trouvé les aires où la ville se vaporisait, chacun de ses éléments devenu si léger qu’un souffle le dissipait. Les façades, les mobiliers et les silhouettes voletaient comme des cendres au-dessus d’un foyer, puis, d’un coup, tout retombait, et il n’y avait plus que des débris noircis. 

 

Certaines villes étaient plus propices que d’autres à de tels phénomènes : le dessin de Gennevilliers, de Clichy, de Saint-Ouen, d’Auverbilliers, de La Courneuve et de Pantin fluctuait comme un réseau d’ombres projetées sur le sol par des branches d’arbres. Paris, en revanche, apparaissait couvert d’une couche interrompue de bâti, sans interstices entre les immeubles, les boutiques, les parkings, les centres commerciaux, et les rues piétonnes. La ville ressemblait à son plan : un agrégat de carrés et de rectangles diversement colorés et labellisés en gros caractères (« C’est désormais la carte qui […] engendre le territoire » - Jean Baudrillard, Simulacres et simulation). (121)

 

[…]

 

Je ne supportais pas cette image d’une cité totalement balisée, sans jeu entre les diverses constructions, d’un monde où l’on sait toujours où l’on est. Comme un volcan grondant au fond de la forêt, il faut que, quelque part dans la ville, il y ait un endroit où sourd l’inconnu. C’est pourquoi j’aime tellement Jules Verne : chaque personnage des Voyages extraordinaires lutte de toutes ses forces contre l’idée d’un monde fini qui ne ferait que dérouler des motifs déjà vus cent fois.

 

Comme eux, je n’arrivais à accepter l’image que me présentait le plan, celle d’un Paris uniformément construit, bloc grisé qu’aucune fissure n’entamait. Ce n’était plus une ville mais une maquette : qui vivait là ? (123-124).

 

[…]

 

Je rêvais de villes à la trame mitée, comme Rome et Berlin, où subsistent encore, près de la via di Bravetta et sur l’Orianenburgerstrasse, des friches gigntesques, ou encore de Johannesburg, irrégulièrement perforé de profonds puits de mine. J’imaginais quel quartier, quel monument pourrait être avantageusement remplacé par un terrain vague : l’Opéra (pas Garnier – ses toits offrents un exceptionnel terrain de jeu –, mais Bastille) ? Le Sénat, l’Assemblée nationale ? L’île Saint-Louis (tentant : on ne laisserait debout que Notre-Dame et la Saint-Chapelle, dont les tours, au bout de quelques années, émergeraient d’un indescriptible fouillis végétal) ? Le XVIe (mais c’est déjà un désert) ? L’Arc de triomphe, ne serait-ce que pour le plaisir rompre la perspective grandiloquente Concorde-Étoile-Défense ? Rive gauche, on raserait l’Académie française, les Invalides, l’École militaire et la plupart des ministères en bord de Seine, ne laissant dans l’herbe que quelques sections de corniches dorées et des morceaux du dôme de l’Institut. Les Halles, le front de Seine et de La Défense seraient intégralement vidés de leur population salariée et les bureaux, laissés en l’état, ouverts au public : on interdirait, sur ces sites, toute nouvelle implantation d’entreprises ou de commerces. Enfin, à l’image de la tour Saint-Jacques, jamais aussi belle que depuis qu’elle est intégralement recouverte d’échafaudages, des réseaux de poutrelles de métal serrées viendraient masquer certains monuments, tels le Panthéon et l’Obélisque. (126-127).

 

[…]

 

Terrains d’excursions balisés, les jungles, les déserts et les montagnes ont cessé d’être des terra incognita : la frontière du monde connu passe désormais aux portes des villes. Les mégalopoles s’indifférencient sur leurs marges, et les zones blanches sont les avant-postes de cette transformation, les points par  où Paris, Lagos e Rio communiquent come les bassins d’une écluse. Un double mouvement rapproche les grands centres urbains : à l’internationale, grossièrement mise en scène, des sièges sociaux et des salons VIP répond celle des terrains vagues et des bidonvilles, zones poreuses, reliées entre elles par un réseau de correspondances fines comme des vaisseaux capillaires et qui peuvent permettre de voyager sans bouger. (130-131).

 

[…]

 

Un malaise finit par nous gagner, mélange de mal de mer et d’illusion d’optique persistante, et, pour le dissiper, on fixe son regard sur un détail jusqu’à le voir effectivement changer. Rien ne se passe, et quand, de guerre lasse, on détourne les yeux, c’est encore un nouveau panorama. (132)

...

<<<...>>> 

...

obs:

 

As areias do deserto e as águas do mar, o espelhismo e o marear-se, ambos ejôos diante da permanente mudança que é também monotonia (tudo azul, tudo amarelo e azul). Parece que hoje ensaiamos a possibilidade de cartografar o imapeável (cartografia videográfica ?), de habitar o inhabitável (informática difusa ?), ainda que continuemos buscando um ponto de referência, um detalhe, uma linha de fuga onde possamos ancorar um tímido principium individuationis. E neste sentido algo me diz que paulatinamente passamos da sensação de exílio (da nostalgia de um paraíso perdido, das grandes representações) a outra coisa, algo novo, um elogio do território-fronteira, da dispersão, de um ser passageiro, de um constante depaysement.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

49

existem os posts grandes e existem os posts crosmonáuticos.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Grupos armados intensificam saques e estupros coletivos no Congo

Agência AFP
LUVUNGI - Os grupos armados multiplicaram nas últimas semanas os ataques contra o território isolado de Walikale, leste da República Democrática do Congo, aproveitando a densidade da vegetação, a falta de estradas e a fragilidade da rede de comunicações.
Rebeldes hutus das Forças Democráticas de Libertação de Ruanda (FDLR) e suas milícias aliadas locais Mai-Mai cometeram estupros e saques sistemáticos em Luvungi durante quatro dias no final de julho e início de agosto.
Luvungi se encontra a 70 km a nordeste de Walikale, principal cidade do território, a única rota que leva a Goma, a capital provincial.
Na selva que domina quase todo o território, os membros do FDLR e do Mai Mai têm suas bases, de onde lançam ataques contra os povoados situados à margem das estradas.
Num dos ataques mais violentos, em 30 de julho, os grupos saquearam e estupraram 284 mulheres em Luvungi. Só depois de mais de um mês essas mulheres puderam narrar o horror vivido na madrugada do ataque a este povoado de 2.160 habitantes.
Em grupos de sete homens, os rebeldes invadiram as cabanas de barro seco, agrediram e afugentaram os homens e, em seguida, começaram a procurar por ouro, chegando a revistar as partes íntimas das mulheres para ver se não estavam escondendo o metal precioso. Em seguida, deram início ao estupro coletivo diante do olhar apavorados das crianças.
"Eles tiraram minha roupa, me jogaram no chão e disseram que havia chegado minha hora de morrer", contou Anna, uma octogenária que foi estuprada por quatro homens. Ela teve dois dedos cortados a machado.
No total, 284 mulheres e menores - de 13 a 80 anos - foram estupradas nessa noite em Luvungi.
12:38 - 08/09/2010
http://jbonline.terra.com.br/pextra/2010/09/08/e080916787.asp 



segunda-feira, 6 de setembro de 2010

le film blanc (2)

ele vai aos terrenos baldios e colhe objetos encontrados. um jet de spray, um saco com latas dentro da validade, um jeans maltranformado em short, etc. decide  então começar a colher a própria terra do lugar. junta e classifica os grãos por garrafas de plástico que alinha sob a janela do estúdio. um dia chega em casa e encontra ela deitada no chão. ao seu lado uma pintura e uma garrafa aberta. tinha usado como pigmento uma das terras que, por ter sido encontrada ao lado de uma fábrica de tinta chinesa, era tóxica e negra. o quadro era figurativo quase abstrato. fumaças e horizontes da subúrbia.
2 - entra no aeroporto e passa pelos detectores de metal. perguntam pelo conteúdo daquela garrafa. explica que é terra de saint-denis. que não poderia ser estúpido o suficiente para levar cocaina negra numa garrafa de água com gás. arma-se uma pequena confusão. especialistas. análise. quando entra no avião já é sob o som dos autofalantes que procuram por um passageiro desaparecido. 

sábado, 4 de setembro de 2010

primeiras linhas à Dominique Cotrezz

Os sapatos grudados nos pés suspensos descem ao chão. O corpo levanta e a cada passo a madeira range. A mãe não acordou, não acaba de acordar. Nunca acorda. A mãe levanta muitas vezes aos dias, às noites. Caminha. Na cozinha o café frio volta ao fogo e do fogo vai à boca. O estômago arde. As pupilas diminuem de tamanho enquanto os olhos crescem. Mais despertos, mais precisos, entre pálpebras que agora se espremem, os olhos avançam em direção ao filete de mata e escuridão que se deixa ver através da fenda que se abriu na tela verde coberta de carcaças de mosquitos enredados sempre pouco antes que atravessassem a minúscula janela. Fazer a ronda se já é noite, dar a volta na casa com as lanternas presas às mãos e ao topo da cabeça envolta por barbantes e elásticos gastos, para em seguida retornar ao quarto, suspender o corpo na cama, olhar o teto, prestar atenção aos ruídos. Hoje não ouve as cigarras: um ou outro galho de árvore despenca, folha, mariposa, morcego, algo cai na laje e ressoa nas paredes do cômodo. A mãe levanta. Caminha. Com sua ajuda, o tronco de árvore deitado detrás da porta de entrada rola para o centro da sala. A mãe abre a porta e ilumina o entorno, a neblina oculta a noite, a folhagem ao longe. A mãe pouco avança, solta as lanternas dentro dos bolsões do colete e recolhe um pássaro ferido antes de pisá-lo. A água que lava o pássaro escorre enferrujada pela banheira. Terra, sangue, o ralo engole o líquido viscoso e amarronzado. As asas, a mãe enlaça com elástico. Contra o sentido da plumagem, arrasta as unhas, todos os dedos, a mão em garra, esfrega a ave, até encontrar a ferida. A mãe mira-lhe os olhos perdidos, ainda vibrantes de dor. Na pequena abertura por onde vaza o sangue da ave, o dedo indicador roça, roça sempre mais firme, até atingir o lado de dentro. Com a ajuda de outro dedo, e de mais outro, logo a mão está inteira enterrada dentro do pássaro. Olha-o nos olhos uma vez mais e já não os vê sofrer. Já não reagem. A mão abre agora o corpo do pássaro, reparte-o em dois.

Os braços pesam até penderem da mesa, balançam a sonolência à altura das coxas, até que a mãe levanta e caminha. Os pratos, as colheres, a panela e as taças, em pilhas, voltam para a cozinha, desarranjam-se dos braços do homem para dentro da pia. No banheiro, todas as roupas se acumulam no chão, o homem despido urina e se larga na banheira enquanto a água cobre-lhe o corpo. Da cabeça recostada o ar sai cada vez mais ritmado, as pernas amolecem primeiro e depois o corpo todo aos poucos escorrega adormecido. Quando o nariz é invadido pela água o homem deixa repentinamente a letargia e o banho. Recupera do chão o mesmo casaco de lã que antes amontoou e ainda molhado cobre com ele os braços, as costas, à altura da virilha. Os vapores do banheiro se dissipam lentamente. Ao meio da sala repousa o tronco de árvore que costuma trancar a porta, o homem agora senta-se sobre ele, à espera da mãe. Quando o sol de meio dia já aquece a casa e a madeira do velho mobiliário estala alternadamente pelos cômodos, a porta de entrada volta a se abrir. Um gato do mato atravessa a soleira enrolado ao pescoço da mãe. As mãos da mãe seguram, cada uma, duas de suas patas. Sempre com o gato envolto no pescoço a mãe caminha. Atravessa a sala, percorre o quarto em torno da cama, caminha impulsionada pelo piso que ressoa aos seus passos, até se deixar levar para a cozinha.

le film blanc

quedarme saltando la rayuela mientras las manifiestaciones anti-sarkozy. entre el tabaco, la taza de café, el zumo de naranja, los cuartetos de mozart, la chaqueta porteña, el cuaderno, el nuevo boli negro de estimación, los apuntes que hablan de la ciudad como imagen del pensamiento, como metáfora, como mandala, que hablan de la mujer como ciudad y, luego, como mandala, metáfora, imagen del pensamiento. imago mundi, constelacion, consciencia adquirida y cristalizada en un otro plano (surrealista) al alcanzarmos un tal coeficiente de amor. mientras hago la cartografia de su cuerpo en un hotel. pigalle. un sujeto que va hacia todos los terrenos baldios de parís y de la banlieue buscando los sitios blancos del mapa. los sitios no cartografiados. un sujeto que salta entre el lugar y el no-lugar, buscando un norte - el santo graal. que lee la rayuela en el metro de paris. que de repente ve la maga, la babylonia a través de un vidro de ventanilla en el wagon de la línea 2. ¿y como podemos separarnos si aún no nos encontramos? el comboy sale del subterráneo. coge el aire. barbès-neon-afrique. un hombre fascinado por todos los espejos, reflejos, cámaras de videovigilancia, teles, catacumbas, todas ingles, sábanas, dobladuras - posibles puntos de fuga en la ciudad sin horizonte. parís, où le ciel a été terrifié. descubre, entonces, los verdaderos puntos blancos del mapa. los territorios que a matta-clark le gustarían comprar. los territorios-fronteras de los reinos de ergaland-vargaland (la micro-nación imaginaria [real] que posee como territorio las fronteras - que son de tres tipos: territorios-fronteras mentales, territorios-fronteras geográficas, territorios-fronteras ciberespaciales; la ubicuidad [¿territorios-fronteras visuales?]). posible nombre: LE FILM BLANC.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

dois pontos:

há uma brincadeirinha que gostaria de partilhar... chama "no erro" e não tem pretenção de ser nada além do que parece; gastação de onda, só. são umas poesias com melodia e não sabia o que fazer com elas, então... fiz isso com um amigo. vejam vejam!

3

“você ouviu, nas margens da folha do caderno ou do word, ou do rio, ou do rio de janeiro talvez em março ou maio, quiçá agosto...” “ãnh?” “... aquele uivo de anti-herói, engasgado na goela ou estridente de quebrar vidraça e retumbando no erro?” “ah...” “ e o sol da liberdade ou a clausura como hibernação em goles d’água goela abaixo, nuvem abaixo, e a criatura sorvendo a chuva, língua paralela a terra, roubando da terra a chuva que era dela...” “hum...” “ e os braços de osso fraco, que nem mal agarram uma ficção travestida de realidade ou o avesso, logo esgarçam” “eu? vi nada não...”