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[aStro-LáBio]°² = [diáRio de boRdo]°²

o tempo de uma gaveta aberta
é o tempo de uso de uma gaveta aberta
é o tempo de uma gaveta em uso
agora fechada a gaveta guarda
o tempo para trás levou
e não volta mais: voou





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érica zíngano | francine jallageas | ícaro lira | lucas parente

sexta-feira, 10 de julho de 2009

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quinta-feira, 9 de julho de 2009

MAGALI VAI AO BANCO (marona)

Pretende entrar no banco a pobre datilógrafa, como no conto de Graciliano Ramos, no país onde não há mais datilógrafos. Sente-se portanto deslocada, anacrônica, uma máquina de bater adornada com lantejoulas na sala de estar – e afinal para que o vestido curto, os falsos badulaques, esse olhar sinuoso? Lantejoulas? Francamente. O amor é como um sorvete derretendo ao sol. Atrás de Magali, risadas e desaforos contidos.
- A senhora precisa terminar o sorvete antes de entrar – diz o segurança através da porta transparente, giratória e blindada.
Cara de Magali, sofria feito Neuma. Incomodava a delicadeza pálida, a indiferença do segurança do banco. Incomodava o jeito como ele suspendia as calças pela cinta de couro, assim como quem sabe alguma coisa que não vai te dizer.
Um cachorro de madame num colo de madame, lambidas e cafunés, crianças matando gatos, babás uniformizadas fumando cigarros, um cego de braços dados com uma cega, tudo a incomoda. Olha para cima: uma bela encosta, pessoas rindo e apostando no baralho. Um menino ajuda uma senhora a recolher um cacho de bananas que havia caído. O sol reluz como um pequeno escravo. “Um asco” – diz Magali cuspindo no chão.
De repente ela, que sendo Magali sofria feito Neuma, pensa: “O incomodo está em mim, não é culpa das pessoas, da paisagem, é bonita a paisagem, eu é que sou feia, eu sou o borrão”.
Mas então por que sorrir como os outros? Que música era aquela que vinha da casa de pão, do choque entre corpos cansados na saída da estação de trem?
Porque ela – mas ela quem afinal? – queria ser como todo mundo, apenas não podia. Pois detestava o modo como todo mundo persistia na mesma náusea espiral sem fim. Detestava a percepção de que o mundo, o mundo como se imagina o mundo abstrato, o mundo que não está em nós, o mundo que escorre entre os dedos, cagava horrores para as nossas pretensas inclinações. E que desejos afinal? Casar, ter filhos, um asilo decorado com palmeiras? Talvez. E depois, fazer o que mais? Alimentar. E se alimentar de que, para poder alimentar? Amor. E do que se alimenta o amor? Da falta de amor. Perguntas vagas, boçais, o velho de bigode pardo atirando milho aos pombos. Calor detestável, “eu liguei duas vezes, duas é muito, não ligo mais, ele que morra”. Observe bem, Magali: não há perdão, não há saída, não há sala de estar, o amor envelheceu.
- A senhora tem algum objeto metálico, senhora? Chaves, moedas, uma aliança por acaso?
Ora mas que inferno! Uma aliança? Não tinha uma aliança, e daí? Não precisava de uma aliança, ora porra. Mas então por que, sendo Magali, sofrer feito Neuma? Talvez não fosse Magali. Talvez fosse Neuma sofrendo em silêncio e sorrindo, feito Magali enforcada tomando sorvete. Então um lapso. Esquece quem é.
- Não, não tenho nada – diz ao guarda Magali que, ainda sem saber quem é, força a porta giratória.
Sinal de alerta acionado. Todos olham. Magali não repara se alguém olha, mas, é claro, mesmo não tendo visto, todos olham, isso é claro. Onde está o sujeito galante que sorrirá sem jeito e oferecerá ajuda? Alguém aceita salvar um caso perdido? Magali outra vez olhando para o céu, retirante recém chegada. “Céu azul maldito, que estala poesia, céu azul de merda”. Magali confusa.
Atende por Magali, anda como Rita, cora feito Clélia, sofre como Neuma. Esquecer o próprio nome. E tinha cabimento?
Certa algazarra quando o sino toca pela terceira vez. Magali sente-se elevada de alguma forma. Mestre-hindu, Kappelmeister, ela atinge o nirvana, distante das ruínas de um destino decapitado. Colinas das Índias, desertos das Arábias, havia agora possantes Niágaras explodindo em algum lugar secreto dentro de algum lugar vazio no interior úmido de Magali, ou no caminho até Neuma. E como de um corpo tão pequeno poderia jorrar um oceano de mágoas implícitas?
- Meu amigo, você acha que essa mulher assaltaria um banco? Olha só para ela! – diz um grito no fim da fila.
Deveria, sim, ter fechado as cortinas. As plantas são mais frágeis, apodrecem rápido. Nós demoramos. Não sabendo o que fazer, quem era e como prosseguir, sem saber que era de batismo Magali da Cruz Pereira Neves, formada em direito e datilógrafa – mas como assim datilógrafa?
- Senhora, o sinal foi acionado cinco vezes. A senhora tem certeza de que não porta nada que possa porventura comprometer a senhora?
Senhora, senhora, senhora, senhora de alguém, mas senhora de quem? A dignidade derrete-se nos olhos da moça. Por um lampejo ela se lembra – Magali! – então tem uma visão anormal, um pouco embaçada, quem sabe mítica, uma casa perturbadora, casa branca de janelas azuis, em frente a uma caravela feita de ladrilhos portugueses. Sobre a casa, uma estaca de ferro nua, sem adornos, dando à construção um aspecto de maçonaria. De repente uma frase: “Fazer amor é uma forma de compensar a morte e alcançar a arte”. De um filme francês, certamente. Não esquecer de comprar incensos.
Magali rola os olhos em vertigem e, quando olha outra vez para frente, com muitas mãos espalmadas nas suas costas, outras apalpando furtivamente suas nádegas, inclusive a sensação de um dedo gelado feito gilete perfurando-lhe as partes íntimas, então são mais gritos, ganidos, uma dona de casa grávida de joelhos, bate-boca, algazarra.
- Invade porra! Tem ladrão aqui não! O povo é honesto!
A cena final desconcertante. Uma senhora grisalha, vestida como se veste uma mulher sob má influência, deixa cair sua caneta enquanto muitos pés massacram o carpete onde se lê o nome da empresa que abastece o mundo para matá-lo de fome. A grisalha então se agacha sobre os saltos quando Magali – agora Neuma até o fim – repara que a mulher usa um batom encarnado e tem estrias laterais na lombar descoberta por desleixo e solidão.
Há um homem com os dois pés entre a caneta, um homem alto, moreno, de barba por fazer, do tipo mangas dobradas de camisa, tentando com o tronco manter a caneta intacta entre as pernas. A senhora grisalha, então, ao se agachar – e que belo decote, senhora grisalha, que belas pernas a senhora tem – roça algumas vezes, no embalo dos empurrões e bolinaços, com o rosto na região pélvica do sujeito que permanece de pé, tentando se movimentar o mínimo, mas cedendo aos poucos à brutalidade da invasão descontrolada. Magali a essa altura carregada pelos ombros, Joana D’Arc desmiolada, fantoche revirando os olhos.
- Me desculpe - sorri enigmática a senhora grisalha. - A caneta foi cair num lugar tão estanho...
O homem apenas fecha as pernas, ambos com os peitos de encontro, os fartos peitos da senhora grisalha espalhando-se pelo peito duro do homem alto, os olhos fixos das lebres no cio. A senhora grisalha abre discretamente a braguilha do sujeito alto, que consente olhando para o relógio com um suspiro de tédio. Mas logo estão se agarrando. Ela sobe como serpente, as unhas encarnadas, a boca encarnada. Lambem-se, bolinam-se. A senhora grisalha enlaça o tronco do rapaz com as pernas e eles saem da fila juntos, destinados a contas atrasadas e uma caneta perdida. E talvez fosse para sempre, talvez aquilo fosse mesmo o amor. Saindo da briga, pulando pela janela, abandonando a casa antes do incêndio. “Mas não o amor, o amor envelheceu”.
Magali ainda tem tempo de ver como realmente é linda a paisagem, como todas as paisagens são lindas quando vistas pela última vez. Os barcos assim como de cerâmica. Como são elegantes as garças, mesmo comendo lixo e peixe podre. O dia morrendo diante dos seus olhos num tom violáceo, como os próprios olhos dela, Magali com cara de Neuma. E era ainda tão cedo – paisagem linda realmente – era muito cedo ainda, cedo demais para cair, morta como garça no lixo, como cerâmica, como peixe podre, com a cabeça esmagada no meio-fio do bairro da alta classe. Magali sorri.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

acordei escutando dream

terça-feira, 7 de julho de 2009

"hoje sou james dean"

hoje sou james dean na última curva, algo como baudelaire chutando cristo ou gandhi pedindo uma cerveja preta. sou falta do que falta em que falta faz, os olhos marejam de cansaço insípido, as fronteiras não se rompem, os olhos, por que pensar tanto assim nos olhos? por que fazer a cama e esperar a morte? hoje sou james dean à beira do segundo, camus rasgando papéis ensangüentados. sou a última anotação de quem chora, as costas largas reiteram o crime antigo. mas que tristeza esse trompete ao fundo, esses móveis de madeira de lei, e que lei nos fez pensar com os pés para desabar: bichos de pau doendo úmidas entranhas?

"poema com quatro dentes"

restaria talvez apenas se enroscar à fumaça do cigarro,
comprar um maço e fumar já que a dor não passa.
descrever o espasmo de uma sensação silenciosa
valeria muito mais que a paz talvez ressuscitada
com a qual seguimos, enroscados à fumaça do cigarro,
de mãos dadas, vendados diante do último tiro
de um primitivismo que agoniza já sem dentes
e lá fora há o som das entranhas do resto ativo
enquanto vejo o cigarro se apagar em vão na asa lenta
do crime predileto em meio à madrugada gelada.
sou Humphrey Bogart e tenho dúvidas preciosas
sobre gritos de marfim pregados na parede negra
das ilusões perdidas, enroscadas na fumaça do cigarro.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

iuri irmão 4

cara,
vi o filme do iuri agora.
amei de paixão.
tem que estar en la revista.
toda essa experimentação digital de primeiro filme.
pensei numa curadoria.
a seleção seria de digitos sensuais.
o chá de fita. o azul-laranja do iuri.
o filme do uirá sobre memória amistad.
filmes de músicos. filmes montados harmonicamente - 
as cores produzindo intervalos auditivos. 
como olivier messiaen.
a sensualidade a sensualidade a sensualidade numérica.
quando voltar fazemos cineclub contigo e ernesto três irmãos.
chêro.

ROBERTO BOLAÑO (trecho de Literatura + Enfermedad = Enfermedad).

Enfermedad y viajes

Viajar enferma. Antiguamente los médicos recomendaban a sus pacientes, sobre todo a los que padecían enfermedades nerviosas, viajar. Los pacientes, que por regla general tenían dinero, obedecían y se embarcaban en largos viajes que duraban meses y en ocasiones años. Los pobres que tenían enfermedades nerviosas no viajaban. Algunos, es de suponer, enloquecían. Pero los que viajaban también enloquecían o, lo que es peor, adquirían nuevas enfermedades conforme cambiaban de ciudades, de climas, de costumbres alimenticias.

Realmente, es más sano no viajar, es más sano no moverse, no salir nunca de casa, estar bien abrigado en invierno y sólo quitarse la bufanda en verano, es más sano no abrir la boca ni pestañear, es más sano no respirar. Pero lo cierto es que uno respira y viaja. Yo, sin ir más lejos, comencé a viajar desde muy joven, desde los siete u ocho años, aproximadamente. Primero en el camión de mi padre, por carreteras chilenas solitarias que parecían carreteras posnucleares y que me ponían los pelos de punta, luego en trenes y en autobuses, hasta que a los quince años tomé mi primer avión y me fui a vivir a México. A partir de ese momento los viajes fueron constantes. Resultado: enfermedades múltiples.

De niño, grandes dolores de cabeza que hacían que mis padres se preguntaran si no tendría una enfermedad nerviosa y si no sería conveniente que emprendiera, lo más pronto posible, un largo viaje reparador. De adolescente, insomnio y problemas de índole sexual. De joven, pérdida de dientes que fui dejando, como las miguitas de pan de Hansel y Gretel, en diferentes países; mala alimentación que me provocaba acidez estomacal y luego una gastritis; abuso de la lectura que me obligó a llevar lentes; callos en los pies producto de largas caminatas sin ton ni son; infinidad de gripes y catarros mal curados. Era pobre, vivía en la intemperie y me consideraba un tipo con suerte porque, a fin de cuentas, no había enfermado de nada grave. Abusé del sexo pero nunca contraje una enfermedad venérea. Abusé de la lectura pero nunca quise ser un autor de éxito. Incluso la pérdida de dientes para mí era una especie de homenaje a Gary Snyder, cuya vida de vagabundo zen lo había hecho descuidar su dentadura. Pero todo llega. Los hijos llegan. Los libros llegan. La enfermedad llega. El fin del viaje llega.

Enfermedad y callejón sin salida

El poema de Baudelaire se llama “El viaje”. El poema es largo y delirante, es decir posee el delirio de la extrema lucidez, y no es éste el momento de leerlo completo. El traductor es el poeta Antonio Martínez Sarrión y sus primeros versos dicen así:

Para el niño, gustoso de mapas y grabados, Es semejante el mundo a su curiosidad.

El poema, pues, empieza con un niño. El poema de la aventura y del horror, naturalmente, empieza en la mirada pura de un niño. Luego dice:

Un buen día partimos, la cabeza incendiada, 

Repleto el corazón de rabia y amargura, Para continuar, tal las olas, meciendo Nuestro infinito sobre lo finito del mar: Felices de dejar la patria infame, unos; El horror de sus cunas, otros más; no faltando, Astrólogos ahogados en miradas bellísimas De una Circe tiránica, letal y perfumada. Para no ser cambiados en bestias, se emborrachan De cielos abrasados, de espacio y resplandor, El hielo que les muerde, los soles que les queman, La marca de los besos borran con lentitud. Pero los verdaderos viajeros sólo parten Por partir; corazones a globos semejantes A su fatalidad jamás ellos esquivan Y gritan “¡Adelante!” sin saber bien por qué.

El viaje que emprenden los tripulantes del poema de Baudelaire en cierto modo se asemeja al viaje de los condenados. Voy a viajar, voy a perderme en territorios desconocidos, a ver qué encuentro, a ver qué pasa. Pero previamente voy a renunciar a todo. O lo que es lo mismo: para viajar de verdad los viajeros no deben tener nada que perder. El viaje, este largo y accidentado viaje del siglo XIX, se asemeja al viaje que hace el enfermo a bordo de una camilla, desde su habitación a la sala de operaciones, donde le aguardan seres con el rostro oculto debajo de pañuelos, como bandidos de la secta de los hashishin. Por cierto, las primeras estampas del viaje no rehúyen ciertas visiones paradisíacas, producto más de la voluntad o de la cultura del viajero que de la realidad:

¡Asombrosos viajeros! ¡Cuántas nobles historias Leemos en vuestros ojos profundos como el mar! Mostradnos los estuches de tan ricas memorias

Y también dice: ¿Qué habéis visto? Y el viajero, o ese fantasma que representa a los viajeros, contesta enumerando las estaciones del infierno. El viajero de Baudelaire, evidentemente, no cree que la carne sea triste y que ya haya leído todos los libros, aunque evidentemente sabe que la carne, trofeo y joya de la entropía, es triste y más que triste, y que una vez leído un solo libro, todos los libros están leídos. El viajero de Baudelaire tiene la cabeza incendiada y el corazón repleto de rabia y amargura, es decir, probablemente se trata de un viajero radical y moderno, aunque por supuesto es alguien que razonablemente quiere salvarse, que quiere ver, pero que también quiere salvarse. El viaje, todo el poema, es como un barco o una tumultuosa caravana que se dirige directamente hacia el abismo, pero el viajero, lo intuimos en su asco, en su desesperación y en su desprecio, quiere salvarse. Lo que finalmente encuentra, como Ulises, como el tipo que viaja en una camilla y confunde el cielo raso con el abismo, es su propia imagen:

¡Saber amargo aquel que se obtiene del viaje! Monótono y pequeño, el mundo, hoy día, ayer, Mañana, en todo tiempo, nos lanza nuestra imagen: ¡En desiertos de tedio, un oasis de horror!

Y con ese verso, la verdad, ya tenemos más que suficiente. En medio de un desierto de aburrimiento, un oasis de horror. No hay diagnóstico más lúcido para expresar la enfermedad del hombre moderno. Para salir del aburrimiento, para escapar del punto muerto, lo único que tenemos a mano,y no tan a mano, también en esto hay que esforzarse, es el horror, es decir el mal. O vivimos como zombis, como esclavos alimentados con soma, o nos convertimos en esclavizadores, en seres malignos, como el tipo aquel que después de asesinar a su mujer y a sus tres hijos dijo, mientras sudaba a mares, que se sentía extraño, como poseído por algo desconocido, la libertad, y luego dijo que las víctimas se habían merecido lo que les pasó, aunque al cabo de unas horas, más tranquilo, dijo que nadie se merecía una muerte tan cruel y luego añadió que probablemente se había vuelto loco y les pidió a los policías que no le hicieran caso.

Un oasis siempre es un oasis, sobre todo si uno sale de un desierto de aburrimiento. En un oasis uno puede beber, comer, curarse las heridas, descansar, pero si el oasis es de horror, si sólo existen oasis de horror, el viajero podrá confirmar, esta vez de forma fehaciente, que la carne es triste, que llega un día en que todos los libros están leídos y que viajar es un espejismo. Hoy, todo parece indicar que sólo existen oasis de horror o que la deriva de todo oasis es hacia el horror.

Le Voyage

À Maxime du Camp

I

Pour l'enfant, amoureux de cartes et d'estampes, L'univers est égal à son vaste appétit. Ah! que le monde est grand à la clarté des lampes! Aux yeux du souvenir que le monde est petit!

Un matin nous partons, le cerveau plein de flamme, Le coeur gros de rancune et de désirs amers, Et nous allons, suivant le rythme de la lame, Berçant notre infini sur le fini des mers:

Les uns, joyeux de fuir une patrie infâme; D'autres, l'horreur de leurs berceaux, et quelques-uns, Astrologues noyés dans les yeux d'une femme, La Circé tyrannique aux dangereux parfums.

Pour n'être pas changés en bêtes, ils s'enivrent D'espace et de lumière et de cieux embrasés; La glace qui les mord, les soleils qui les cuivrent, Effacent lentement la marque des baisers.

Mais les vrais voyageurs sont ceux-là seuls qui partent Pour partir; coeurs légers, semblables aux ballons, De leur fatalité jamais ils ne s'écartent, Et, sans savoir pourquoi, disent toujours: Allons!

Ceux-là dont les désirs ont la forme des nues, Et qui rêvent, ainsi qu'un conscrit le canon, De vastes voluptés, changeantes, inconnues, Et dont l'esprit humain n'a jamais su le nom!

II

Nous imitons, horreur! la toupie et la boule Dans leur valse et leurs bonds; même dans nos sommeils La Curiosité nous tourmente et nous roule Comme un Ange cruel qui fouette des soleils.

Singulière fortune où le but se déplace, Et, n'étant nulle part, peut être n'importe où! Où l'Homme, dont jamais l'espérance n'est lasse, Pour trouver le repos court toujours comme un fou!

Notre âme est un trois-mâts cherchant son Icarie; Une voix retentit sur le pont: «Ouvre l'oeil!» Une voix de la hune, ardente et folle, crie: «Amour... gloire... bonheur!» Enfer! c'est un écueil!

Chaque îlot signalé par l'homme de vigie Est un Eldorado promis par le Destin; L'Imagination qui dresse son orgie Ne trouve qu'un récif aux clartés du matin.

Ô le pauvre amoureux des pays chimériques! Faut-il le mettre aux fers, le jeter à la mer, Ce matelot ivrogne, inventeur d'Amériques Dont le mirage rend le gouffre plus amer?

Tel le vieux vagabond, piétinant dans la boue, Rêve, le nez en l'air, de brillants paradis; Son oeil ensorcelé découvre une Capoue Partout où la chandelle illumine un taudis.

III

Etonnants voyageurs! quelles nobles histoires Nous lisons dans vos yeux profonds comme les mers! Montrez-nous les écrins de vos riches mémoires, Ces bijoux merveilleux, faits d'astres et d'éthers.

Nous voulons voyager sans vapeur et sans voile! Faites, pour égayer l'ennui de nos prisons, Passer sur nos esprits, tendus comme une toile, Vos souvenirs avec leurs cadres d'horizons.

Dites, qu'avez-vous vu?

IV

«Nous avons vu des astres Et des flots, nous avons vu des sables aussi; Et, malgré bien des chocs et d'imprévus désastres, Nous nous sommes souvent ennuyés, comme ici.

La gloire du soleil sur la mer violette, La gloire des cités dans le soleil couchant, Allumaient dans nos coeurs une ardeur inquiète De plonger dans un ciel au reflet alléchant.

Les plus riches cités, les plus grands paysages, Jamais ne contenaient l'attrait mystérieux De ceux que le hasard fait avec les nuages. Et toujours le désir nous rendait soucieux!

— La jouissance ajoute au désir de la force. Désir, vieil arbre à qui le plaisir sert d'engrais, Cependant que grossit et durcit ton écorce, Tes branches veulent voir le soleil de plus près!

Grandiras-tu toujours, grand arbre plus vivace Que le cyprès? — Pourtant nous avons, avec soin, Cueilli quelques croquis pour votre album vorace Frères qui trouvez beau tout ce qui vient de loin!

Nous avons salué des idoles à trompe; Des trônes constellés de joyaux lumineux; Des palais ouvragés dont la féerique pompe Serait pour vos banquiers un rêve ruineux;

Des costumes qui sont pour les yeux une ivresse; Des femmes dont les dents et les ongles sont teints, Et des jongleurs savants que le serpent caresse.»

V

Et puis, et puis encore?

VI

«Ô cerveaux enfantins!

Pour ne pas oublier la chose capitale, Nous avons vu partout, et sans l'avoir cherché, Du haut jusques en bas de l'échelle fatale, Le spectacle ennuyeux de l'immortel péché:

La femme, esclave vile, orgueilleuse et stupide, Sans rire s'adorant et s'aimant sans dégoût; L'homme, tyran goulu, paillard, dur et cupide, Esclave de l'esclave et ruisseau dans l'égout;

Le bourreau qui jouit, le martyr qui sanglote; La fête qu'assaisonne et parfume le sang; Le poison du pouvoir énervant le despote, Et le peuple amoureux du fouet abrutissant;

Plusieurs religions semblables à la nôtre, Toutes escaladant le ciel; la Sainteté, Comme en un lit de plume un délicat se vautre, Dans les clous et le crin cherchant la volupté;

L'Humanité bavarde, ivre de son génie, Et, folle maintenant comme elle était jadis, Criant à Dieu, dans sa furibonde agonie: »Ô mon semblable, mon maître, je te maudis!«

Et les moins sots, hardis amants de la Démence, Fuyant le grand troupeau parqué par le Destin, Et se réfugiant dans l'opium immense! — Tel est du globe entier l'éternel bulletin.»

VII

Amer savoir, celui qu'on tire du voyage! Le monde, monotone et petit, aujourd'hui, Hier, demain, toujours, nous fait voir notre image: Une oasis d'horreur dans un désert d'ennui!

Faut-il partir? rester? Si tu peux rester, reste; Pars, s'il le faut. L'un court, et l'autre se tapit Pour tromper l'ennemi vigilant et funeste, Le Temps! Il est, hélas! des coureurs sans répit,

Comme le Juif errant et comme les apôtres, À qui rien ne suffit, ni wagon ni vaisseau, Pour fuir ce rétiaire infâme; il en est d'autres Qui savent le tuer sans quitter leur berceau.

Lorsque enfin il mettra le pied sur notre échine, Nous pourrons espérer et crier: En avant! De même qu'autrefois nous partions pour la Chine, Les yeux fixés au large et les cheveux au vent,

Nous nous embarquerons sur la mer des Ténèbres Avec le coeur joyeux d'un jeune passager. Entendez-vous ces voix charmantes et funèbres, Qui chantent: «Par ici vous qui voulez manger

Le Lotus parfumé! c'est ici qu'on vendange Les fruits miraculeux dont votre coeur a faim; Venez vous enivrer de la douceur étrange De cette après-midi qui n'a jamais de fin!»

À l'accent familier nous devinons le spectre; Nos Pylades là-bas tendent leurs bras vers nous. «Pour rafraîchir ton coeur nage vers ton Electre!» Dit celle dont jadis nous baisions les genoux.

VIII

Ô Mort, vieux capitaine, il est temps! levons l'ancre! Ce pays nous ennuie, ô Mort! Appareillons! Si le ciel et la mer sont noirs comme de l'encre, Nos coeurs que tu connais sont remplis de rayons!

Verse-nous ton poison pour qu'il nous réconforte! Nous voulons, tant ce feu nous brûle le cerveau, Plonger au fond du gouffre, Enfer ou Ciel, qu'importe? Au fond de l'Inconnu pour trouver du nouveau!

— Charles Baudelaire

baudelaire

domingo, 5 de julho de 2009

"sombras improvisadas"

este relato usa nomes reais mas não passa de uma ficção sobre um momento histórico para formar outro momento não tão importante assim nem tão histórico assim mas meu.
No início das filmagens de Shadows, John Cassavetes telefonou para Charles Mingus, que na época vivia com seus óculos escuros de abelha, comendo tortas de merengue pelos becos do Village, criando suas epopéias, sempre – os cabelos como choque de alta tensão – da sua forma caótica e sangrenta. Combinaram de se encontrar para beber. John precisava de uma trilha para seu filme. Um filme feito a partir de um estudo da improvisação, no qual Cassavetes atuava como um motor propulsor, incendiando seus alunos, que eram também seus atores. Miles Davis tinha refugado por causa do seu contrato de exclusividade com a Columbia. Mingus estudava cada vez em águas mais profundas, e era fácil encontrá-lo atrás de um rabo ou um trago ou uma dose nos arredores do Café Bohemia. Era o homem certo para o trabalho, se fosse possível encontrá-lo ainda de pé. John explicou a Mingus o teor do seu filme, e porque precisava dele. Como sempre, Cassavetes queria o instante, o fogo ainda frio, na chama ainda azul, o cume da emoção capturado no instante exato. Mingus disse algo como “Cara, acho que gostei da sua idéia. Mas me deixe pensar”, e desligou. Pouco tempo depois, John telefonou. - Tudo bem, cara, queremos fazer – disse Mingus. – Vai ser com o Shafi no alto. Mas preciso de tempo para trabalhar. Quero fazer isso direito. - Tudo bem, Charlie, sem problema – disse Cassavetes. Houve um tempo de silêncio, durante o qual se ouvia uma respiração pesada como um bocejo de hipopótamo. - Quanto tempo, Charlie? – disse John. - Tempo. Eu te procuro quando encontrar o tema. Mingus desligou o telefone. Três meses se passaram, as filmagens já estavam bastante adiantadas, quando John procurou Mingus outra vez. - Ei, Charlie, como vão as coisas? - Mal, cara, muito mal... Tem uns gatos filhos-da-puta nessa merda de apartamento que ficam cagando sobre os meus papéis e não me deixam trabalhar. Impossível trabalhar desse jeito, escutou? Impossível me concentrar desse jeito! - Os gatos são seus, Charlie? - Sim, mas não sei como vieram parar aqui. Você precisa se livrar deles. Venha agora. Mingus desligou o telefone. Isso já estava se tornando uma rotina. John não gostava de rotina. Seu filme não era sobre rotina. John Cassavetes foi até o apartamento de Charles Mingus com alguns de seus alunos e se livrou de todos os gatos, escovou o assoalho, limpou os vidros, lavou até mesmo o banheiro. Deu trabalho. Era a típica espelunca de um viciado em heroína, muito comum no Village daqueles tempos. Tinha as janelas emperradas e completamente embaçadas, o mofo imperante descolando o reboco, tábuas de assoalho que rangiam por debaixo do carpete encardido mal-fixado, com muitos buracos de pontas de cigarro nele, as paredes descascadas como carrancas demoníacas num branco poroso, algumas garrafas esquecidas no chão, como bebês natimortos, e uma certa paz caótica que se encontra na mortalha deste tipo de ambiente que, apesar de tudo, ganhava naturalidade e até mesmo beleza, com o contrabaixo de Mingus intacto e muito bem polido no canto da sala. Mingus observou tudo de pé, braços cruzados, com a cara amarrada por trás da escuridão das lentes. Parecia contrariado com o fato de estarem mexendo nos seus papéis. Mas deixou que terminassem. No final ficaram apenas ele e John, tomando o que havia sobrado de um quarto de vinho de mesa e fumando cigarros na varanda, enquanto aviões supersônicos sobrevoavam os arranha-céus de Manhattan. - O que você já tem para mim, Charlie? – disse John com delicadeza. - Lady Johnny, não me pressione. Tenho o tema para o seu filme. - Posso ouvir? - Sim, é claro, garoto. Mas, por favor, não me pressione. Mingus deu um forte trago no seu cigarro, cheio de manha, e solfejou seis notas que não pareceriam harmônicas, não fossem, é claro, de Charles Mingus. - É isso? – disse John. - Só que ainda não escrevi. Preciso de mais tempo. - Tudo bem. Cassavetes visitava o estúdio de Mingus quase diariamente. Estava cada vez mais irritado com a lentidão do seu processo de composição, mas o respeitava demais como músico para interferir. Um artista precisa de espaço, ele pensava, mas de onde eu vou tirar tempo? Um belo dia, John chegou pela manhã com pães e leite e encontrou Mingus deitado no chão, dando cabeçadas contra a parede, sem nenhuma expressão no rosto, completamente nu. - Você não parece muito bem, Charlie. Mingus parou, firmou um joelho na frente do outro e se levantou com a ajuda da parede. Andou vagarosamente na direção de John e o agarrou com força pelo colarinho. Perdigotos como chuva ácida amarrotaram a manhã de sol. - Escuta, cara, não posso trabalhar... Essa espelunca parece um consultório dentário! Tudo muito limpo, muito arrumado! Preciso dos gatos de volta...
***
Nesse ritmo seguiram as filmagens. Uma vez o tema estabelecido, Mingus passou a freqüentar um pequeno cortiço esfacelado – que todos chamavam carinhosamente de estúdio – com sua banda, onde assistia às imagens do filme, tocava livremente e discutia suas idéias com Cassavetes, mas só depois que estivesse embriagado. Antes disso, amaldiçoava as paredes e negava qualquer idéia que não a sua, com a justificativa de que o estavam pressionando e que um artista verdadeiro precisa de tempo para criar. Mingus detestava discutir sobre música, ou que lhe ditassem uma conduta. Batia o pé com relação a escrever formalmente a trilha. Mas virava uma criança dócil que se satisfaz com um pirulito em espiral quando estava bêbado. Parecia ser várias pessoas numa só, muitas vezes ao mesmo tempo. - Que merda, Charlie! – gritou Cassavetes, irritado muitos diriam, não fosse a sua maneira de demonstrar entusiasmo. – Escutem, rapazes, vocês são capazes de improvisar... São formidáveis quando improvisam... Podem improvisar a partir do tema que já têm! - Impossível, meu camaradinha. Não podemos fazer isso – disse Mingus. – Negativo. Somos artistas! É preciso que isso seja escrito devidamente. É uma bela música, cara. No fim ficou estabelecido um acordo entre os dois. A banda de Mingus improvisaria a partir do tema composto pelo próprio, como se estivessem tocando num clube de jazz dentro do filme. Gravaram a trilha em poucas horas, e então Charles Mingus desapareceu. John se deu conta de que precisava rodar mais algumas cenas antes de dar o filme por terminado. Convocou a atriz Lelia Goldoni, protagonista do filme, que estava tendo um filho na Califórnia. - Precisamos de mais umas cenas, Lelia. Você pode vir? - Eu cortei os cabelos, John. - Te arranjamos uma peruca. - Acabei de ter um filho. - Já escolheu o nome? - Ainda não. - Então escolha logo e venha no vôo das nove horas. É claro que era preciso encontrar Charles Mingus. Mas não havia sinal dele. Cassavetes ligou para Shafi Hadi. Mingus havia viajado para Tijuana, no México. Fazia alguns meses. Shafi também não tinha notícias desde então. Mas falou sobre o que parecia ser uma espécie de expedição musical. - Esse filho-da-puta viciado fumando peiote e eu aqui comendo merda – bufou John. Shafi não disse nada. - Escuta, Shafi, você não quer fazer no lugar dele? - Ele compôs a música, cara. Não tem como fazer da maneira que ele faz. - Eu quero da sua maneira! - Tá legal. Shafi Hadi era muito magro e alto, tinha uma postura elegante e se vestia muito bem, por mais que estivesse sempre com roupas amarrotadas, cheirando a bordel. Chegou no estúdio onde encontrou John com uma camisa abotoada e um colete puído, anotando num papel com a mão apoiada na testa, falando alto com ninguém. - Ei, Lady Johnny! – gritou Shafi. – Falando com os mortos? - Vamos gravar? – disse John, virando-se bruscamente. - Espere só eu montar o meu cisne. Então você terá o seu lago. John mostrou a Shafi os trechos do filme que sua música cobriria. Mostrou três vezes os mesmos trechos. Shafi Hadi permaneceu em silêncio o tempo todo, com os olhos semifechados. Então ficaram os dois se olhando em silêncio. John com as mãos nas ancas, Hadi abraçado ao seu sax. - Você espera que eu toque dessa maneira? – disse o músico finalmente. - Quero que toque pensando nas imagens que vê. Pensando no que elas te fazem sentir. - Preciso de uma história. - O quê? - Preciso que você me conte a história da minha vida, para poder tocar sobre ela.
John ficou um minuto ou dois vidrado nos olhos de Shafi, pensando no assunto. Poderia tanto engolir sua cabeça quanto pular pela janela. Mas depois subiu na mesa e começou a contar uma história, uma história alucinada, uma história qualquer sobre um saxofonista que tinha problemas com a bebida e com as agulhas, e em pouco tempo estava pulando freneticamente de cadeira em cadeira, fazendo caretas monstruosas e passos de dança, esculpindo mensagens no ar com as mãos, desenhando sonhos enlouquecidos num mar opiáceo, pelo que Shafi Hadi soprou sua história de olhos fechados. E então foram as sombras. E nada mais.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

"O MILÊNIO COCHILA"

vamos lá, vamos tentar outra vez. outra coisa não resta a fazer enquanto os dedos ainda estalam, as lascas das unhas decolam, se acumulam pelo meio da sala. não há como se levantar agora, é preciso parir o feto sem cabeça. há o som dos carros, o som rude do qual já não se ocupam mais os passarinhos: estão de recesso. o mundo desliza fantasticamente rumo à completa inanição e, afinal, o coração de Michael Jackson parou. mas vamos lá, querido, não se afaste. não olhe o teclado, tire o pó da alma, faça falar algo que não seja um crime. vamos lá, o sol se foi, mas vamos lá, foram-se as eras do ouro mais difícil, vamos lá, transitamos sobre a seiva ainda em formação, feita dos restos da matéria esquartejada de deus. deixe a leveza do abandono tomar as artérias, as paredes que se movem e rompem a visão – beije as paredes e abrace a visão que será interrompida com versos de conexões fraudulentas. lá fora tudo cessa, deixamos marcas nas paredes, é preciso limpar a sujeira, o amargo das lágrimas, que alimentam os pássaros mudos: asas em recesso. a beleza da antiga sinfonia se esfarela, o dia pela metade: é preciso realizar já! espere pela forca, avião desmaterializado, a matéria da corda, dos assaltos a banco, salte por cima da rampa, o milênio cochila, as flores do ópio amargam no fundo poético de um estômago faminto, os olhos do câncer, as multidões tomam as ruas com seus narizes escorrendo e caem nos mais diversos buracos. existe uma beleza sem fim no instante da queda brusca: repare nisso, e caia.

"PLÁGIO BARATO DE CAIO FERNANDO ABREU"

Você me fala do meu poema sobre Zelda Fitzgerald, você fala de mim como se eu fosse um touro corajoso e pronto para qualquer capa vermelha, você diz que sou algo que “impulsiona, rebela, explode”, diz que sou lindo, “um homem lindo”, e não que isso seja tudo o que preciso ouvir alguém dizer, até porque reconheço bem essa sensação de formigamento quando nos sentimos presentes de alguma forma na vida de alguém, sei quanto tempo dura, reconheço que, daqui a minutos, estarei outra vez batendo com a cabeça na parede e ouvindo Tim Buckley. Principalmente, sei da minha farsa, e ter amor em sabendo a farsa: não há dádiva maior. Mas você fala e isso é tudo o que importa. Você fala, te imagino de olhos fechados e unhas pintadas, a tinta descascada e os sonhos comidos pela peste, mas os olhos mantêm aquele brilho fundo de uma ternura metálica. E, então, você fala. Fala que vai musicar meu poema chamado Zelda Fitzgerald, a mesma que pegou fogo na cama de um sanatório enquanto o marido se gabava com desconhecidos desdentados e era roubado em bares imundos: “Sou o maior escritor americano vivo”. Mas que importam Zelda, Scott, se agora posso reconhecer com leveza a mentira da intensidade, porque é por estar completamente vazio que li com beleza a carta em que você falava. Falava sobre uma viagem ao sertão-sul do Ceará, “no pé da chapada que leva até Pernambuco”, falava de um determinado português que encontrou por lá e que era a cara do seu ex-namorado – “o amor da sua vida” – e que pediu a este completo estranho, cuja lembrança ilegítima uma vez amara (nossa, isso ficou tão Charles Dickens!), mas eu digo isso, ainda que não reste muito das minhas unhas negras e eu seja apenas um proletário que perde um filete de ternura a cada carregamento de perdão à casa dos acorrentados, mas importa agora enquanto te respondo apenas QUE VOCÊ AMAVA, porque neste português desconhecido de quem você ouviu meus poemas “em Sintra, em Lisboa”, e nele você não via nada, mas sentia a mesma coisa que da outra vez também não viu, porque o que importa mesmo não se vê. Sim, compreendo, o português recitaria meus poemas, você poderia ouvi-lo de outra forma que não a sua e, veja bem, nem mais sei quem escreveu os malditos poemas, já que – imagine! – a surpresa pela forma da tua emoção diante da emoção alheia para mim é dizer a frase: “Veja o poema tomando forma própria, não sendo mais meu (essa miséria sem cordão umbilical) que é o ideal de qualquer coisa que se possa decalcar em árvore ou tornar-se crime”. E agora será inevitável segurar o passo e engolir o choro, já que Tim Buckley insiste com “Blue Melody” e eu nem bem comecei minha terceira cerveja, mas ainda leio o que você fala, veja bem, “eu LEIO o que você FALA”, são coisas com asas e âncoras sutis, são cílios bem-feitos no rosto de um decapitado, de uma beleza como nos quadros pré-religiosos; e você lembra que em algum lugar ainda é verde, “muito muito muito verde” e você diz que eu deveria comprar uma passagem azul e ir lançar meu livro nesse verde todo, e ainda tem o fato de que você também está com seu livro na prensa e roendo as unhas, e então de alguma forma somos um grupo de unhas descascadas, roídas e ainda têm as viagens que precisamos fazer, você diz: “Precisamos viajar para divulgar o livro, além do que é divertido”, e fala das expectativas sobre Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Salvador; fala sobre um carinho especial por Salvador – e quem não tem? – e que as coisas vão mal, as olheiras crescem sem vergonha, as luzes piscam e cegam nosso discernimento seletivo entre restos nobres; você fala também do sol, da sorte, de imagens pulsantes, cobertas por uma lava negra, prato cheio para lâminas e poemas óbvios; fala de coisas que se pode esperar já que não estão em lugar algum. Aqui Tim Buckley acabou. Mas eu “mantenho o som da sua voz nos meus ouvidos”. Ou, pelo menos, algum ouvido, nem que seja para despejar algo queimando.
www.omarona.blogspot.com

quarta-feira, 1 de julho de 2009

"mensagem encontrada no fundo de uma carteira vazia"

SOU FAVORÁVEL A TUDO QUE ME CONDENA.