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[aStro-LáBio]°² = [diáRio de boRdo]°²

o tempo de uma gaveta aberta
é o tempo de uso de uma gaveta aberta
é o tempo de uma gaveta em uso
agora fechada a gaveta guarda
o tempo para trás levou
e não volta mais: voou





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érica zíngano | francine jallageas | ícaro lira | lucas parente

terça-feira, 30 de junho de 2009

salvin road

cores, nomes

duas coisas voadas:
pensei na possibilidade de facilitarmos a associação-processo entre os textos do blog (sem colocar os nomes das pessoas), de duas maneiras:
- colocando as datas.
- organizando os textos por autores de acordo com cores (tipo: eu azul, ícaro rosa, fernando preto, julia vermelho, etc - de forma que as pessoas possam ir juntando pistas se quiserem, e de forma que podemos ver o processo nao só do grupo todo (de acordo com as datas), mas tambem de cada individuo. aliás, pode ficar muito feio tudo colorido. haha.
outra coisa: se os links permanecerem em branco, os textos antigos vao desaparecendo, ou vao ficando dificeis de ler. assim que acho que os links das datas e dos nomes dos textos tem que ficar em preto. posso fazer tudo isso na semana que vem, se voces quiserem. depois é legal deixar aparecer o user profile, de maneira que podemos acessar o blog das outras pessoas através desse blog. blablabla.
na real: ta muito lindo. a ideia do blog-processo-revista é maravilhosa. a concretização tremenda - de tremendo mesmo.
beijundas,
fluorsforecente
P.S.: impressionante como os franceses têm fetiche por neon. lille é pequena e ainda assim mais que bombardeio. paris nao é a cidade da luz, é cidade-neon. escrevi na minha cabeça uma poesia imensa sobre paris. mas nao tive tempo pra escrever. caminhando até acabar com a sola do sapato. dormindo em pé na rua andando.
chêro!
...
a coisa das datas, acho que pode ser legal, apesar de achar que tbm não organizar cronologicamente alguma coisa nessa vida pode até ser bom. 
mas, a coisa das cores... sei não... deve ficar meio esquisi, será que não é legal assim, de maneira que vai se percebendo quem escreveu o que pelas sutilezas? não se torna um jogo? onde a gente repara o jeito que cada um fala, e através das pistas que aparecem vez ou outra quando citamos o nome de um ou de outro? será que essa indistinção não colabora para invenção de um registro de processo menos documental e mais dirigido para o devaneio? digo, a gente situa menos na realidade, fica mais aberto, menos biográfico, até quando entramos em intimidades, ícaro, por ex., (talvez eu tbm) tem investido nessa perda de discernibilidade real-ficcional nos últimos e-mails que escreveu, não e-mails diretamente relacionados a revista, mas que por alguma razão estão publicados no blog... será, inclusive, que nessa voz coletiva não nos permitimos ou nos permitiremos sermos outros? mais desgarrados, talvez? 
sei não...
beijuras

mutter mutter mutter

ok, mutter,
recebi. imprimi. fiquei amigo do iraquiano do locutório. liguei pra mathilde. fico na casa dela a partir de amanha sete da noite. te ligo avisando do resultado. to confiante. agora estudo. agora vou dormir. meu sapato ja nao existe de tanto que caminhei em paris. de gambetta a bercy. de bercy a sorbonne. de sorbonne a sebastopol. paris é cidade-neon. amo aquela merda. é grande de verdade. vejo lille e penso no tedio que enfrentaria morando aqui. mas ia ser bom pra me concentrar. escrever-editar-viajar. tudo uma coisa só. vai atras de um livro chamado caminhando no gelo, do herzog. voce amaria.
um beijo bunda,

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009 crackup

(assistente de edição: I caro) Procurando por fotografias de quando fui loiro e tive pai estava descontrolado nervoso por saber que há menos de um mês estavam pousadas pronunciantes na cadeirinha branca, agora já estou atrasado para a companhia já procurei em todos os lugares bolas. Começo então a cogitar o absolutamente insólito, por entender que o mundo é bravamente minoritário e esperá-las no ralo do chuveiro, debaixo do armarinho de temperos e entre as antenas do televisor. Por fim adormeço no colchão C r a c k vupt, parece que ouvi um barulho debaixo do armarinho, mas não podem ser mais baratas, por deus que não! É antes como algo arranhando a madeira, de leve suave pouquinho só algo pequeno, mas já parou o barulho. Encosto os joelhos vestidos ladrilho morno cozinha com o vapor de ervas do chuveiro, colo as mãos e o rosto ao chão, respirando de breve aquela entrevista de mato do hemisfério norte, pensando então só um milissegundo em como as nossas casas não são nada tropicais, e daí olho por debaixo do armarinho de temperos, o único móvel da cozinha, abro os olhos olho para frente. Descobri hoje que o meu cachorro Toquinho, dado morto desde há onze anos com o diagnóstico de cinomose esteve vivo todo esse tempo escondido num buraco enorme de um azulejo todo solto por debaixo armarinho vivendo como não sei de que O seu pêlo está amarelo como os meus dedos talvez até mais cego feroz já não me ama. Postado por Camila às 17:55 0 comentários Quarta-feira, 17 de Junho de 2009 (projeto de vida para a lei rouanet) Sinopse decidir dói as costas mais fácil chover idéias opostas. Justificativa (máx. 3000 caracteres com espaços) Eu entendo hoje a vida segundo uma série de exercícios práticos, que se articulam sem resultados efetivos, de características insondáveis e caráter duvidoso. O exercício tão antigo de ser outro já não me basta eu tenho de ser to dos eu tenho de ter tu do eu tenho que sondar as já remotas possibilidades. Porque é tão difícil encontrar-te eu tenho de subsistir de formas inteiramente novas, o exercício de ouvir como um sabiá, de entender os números como uma criança, o de abrir as arcas como um moribundo. Essa lucidez de que me exercito just keeps me going. Eu, que por tantas vezes vacilei, que pela memória experimentei o horror, que pela minha feiúra experimentei a solidão dos coxos, hoje já não posso pensar em morrer como silvia ou como ana, não sem antes exercitar-me no ofício de um diminuído mestre kung-fu com os anos, metro e meio dos altíssimos picos nevados enevoados verdes flores picos chineses próprios ao kung-fu. silvia & ana, sisters in time, eu não entendo porque morreria ana senão por amor a silvia, ai é tão fácil sentir saudades de silvia sendo ana, tendo sido ana pressentindo ana. As duas acadêmicas incalculavelmente prodigiosas, eu que larguei a faculdade pelo exercício de botar-me sozinha todo o tempo como se daí necessariamente surgisse algo incrível tenho mais é de olhar-lhes o exemplo e pensar nele, veja bem, as duas escreviam nos intervalos dilatavam os intervalos com uma força imperiosa. Acho, contudo, que a mim não servem os intervalos. O meu corpo é grande e kapha dilatado em carnes, funciona quando quer, de modo que eu demoro um monte para realizar as tarefas mais simples, ponto para silvia porto paraná. A vida inteira é pouco (tempo) para a dimensão de minhas auréolas lunares, para os doces arcos da minha ousadia, pelo amor que tenho em admitir mudanças bruscas e sempre, e do meu amor por tu to do everything. Os anos passaram sem que eu tivesse atinado para esse simples modo, para o que tenho de jovem e de próprio, e fresco, mas eu não me ressinto mais de tê-los perdido, porque today i think of myself as blank sheet e eu tive que subir lá no alto muito alto tão tão alto e já não há como descer senão voando e não há como voar senão querendo. Bocejo. O mundo é todo muito risonho. Cochilo. Delícia. O meu ressentimento, a minha histeria descontrolável os meus espasmos o meu amor ferrenho falso amor para o Krishnamurti só fogo no rabo, esse amor possessivo ignóbil inegável, a minha carranca, a minha indisposição para acordar cedo e também o totem da marginália, as opiniões que defendo às lágrimas e sobre as quais secretamente me questiono ainda, tudo não passa do meu só meu de tu do exercício de subjetividade histriônica vista pelos redondos olhos de uma cobra-cega. Por entender que no fundo a vida é bonachona e belíssima, coisa que só os meus amigos mesmo meus amigos digeridos testados aprovados exaustos exaustivamente beijados repetidamente amigos, as ternuras de meus lábios me ouvem dizer, bem-querer a porra toda. Mas as palavras de verdade são sempre feitas para preencher silêncios (óia o HEIDEGGER, cartalografria biblioginecológica ao melhor gosto de silviana p.261) é por isso que eu digo, bobinho, que a vida é uma merda (mas bem juntinho bem pertinho aqui de mim eu pisco um olho e durmo em paz). Tratamento anti-concepcional To make better use of your life keep smiling, beije e fascine, seja leve loira lute. Eu tenho medo, ó silvia, ó ana, de não suportar as terríveis experiências que me têm aturdido e é por isso que os carinhos serão sinceros, livres, desimpedidos. Tomara mesmo viver até os três mile dois, mais de trinta eu quero sim para conhecer a alegria suave de saber lidar com gente e bichos, para jamais ser de novo confundida por tão nova, por curiosidade até, por que será que será e pelo óbvio de que será o que será e ponto. Me resolvo, hoje ó p.4 de abril num exercício ininvalidável de doçura na extinção da frieza e da apatia, um compromisso em ser gente boa. Será que eu me esqueci de alguma coisa? Postado por Camila às 06:50 2 comentários Terça-feira, 16 de Junho de 2009 (padrecito) aluga-se tratar com pamonha gasolina gás injeção 45km para, capas p/ sofá, peças para automóvel PARE PARA automóvel peças para automóvel no posto de gasolina o cheiro de esterco comida e queimado, me deixam fazer a minha primeira ligação enquanto os meninos sentam no balcão para ver a novela das seis, oh my god. Eu não tenho para quem ligar nem o que dizer, eu sento no balcão também de mãos atadas e ninguém olha para mim. Estou feio e sujo, tão sujo, sou só sebo a pele começa a se soltar dos ombros a virilha coça o rosto brilha o fedor de dias eu ostento como uma digna novidade a todos os novatos que têm a idéia de me falar (“tão magro, pobre! quer um pão? te pago um pão amigo, pão e café” “sou magro de triste” “arruma ocupação pensa em ti” “sou magro há tempos” “não há dia que não seja belo! vem que te pago um pão!” “sou magro de família”). Pela lei da fome pela lei do homem nunca mais vou ver my baby e me enviam de carreta ao coração das trevas. Para cada vez que penso cada mísero detalhe que me ocorre a cada um e são demais eu arranco um fio de cabelo, para cada vez que penso em (mendigo cabeludo não faz carreira). Eu atiro a cabeça na janela do camburão e sonho com as mocinhas da beira da estrada, com seus pescocinhos queimados com suas saias de malha, debaixo de anúncios e placas me olham com medo, estou só de passagem. São tantos os dias é impossível pensar nesse calor as minhas mãos atadas por deus, tudo que eu peço é de volta a graça do tédio, de que me privou o crime. As horas vagas do campo cerrado o carro sobe e desce veraneio velha, meus olhos não abrem é impossível pensar com tanto sol, veraneio velha, eu arranco um fio de cabelo com o dedo mindinho da mão atada à outra e bato com o cocuruto no teto, veraneio. São tantas as horas, o castigo é mordaz, de olho apertado o bigode coçando o cheiro de pólvora do calibre do inimigo, a fumaça que sai do cano do carona tem o meu signo e a minha bênção, e para cada preá morto de jogo por meus capatazes eu tenho de arrancar mais de vinte cabelos. Nunca tive paciência para bichos nem para crianças, sou taurino do dia dez, gosto do cigarro Hilton e meu deus, o sol depôs a minha retina queimada o olho vermelho duro seco eu vejo tão pouco um único ponto embaçado onde decodifico as cores do céu e dos anúncios da estrada, deste céu estrangeiro que não ilumina my baby. Eu me descolei da vida como uma cigarra que abandona o esqueleto. Atirado na terra, a garganta e os ouvidos cheios de terra, eu ouço os sons da velha casa, as mãos cravadas no chão eu sinto entre os dedos as formas domésticas, do seu corpo estragado seu corpo viril corpo sem qualidades. As gargalhadas dos velhos, saídas de entranhas tradicionais e ariscas, de entranhas que nunca viram a luz resistem há tento sem qualquer retorno efetivo, as gargalhadas cessam com o tempo mas eu jamais voltarei (a vê-la). Caído no chão o único argumento é o pulso insistente das minhas próprias entranhas, estas sim ansiosas pelo dia e pelo mundo, de tanto me ouvirem ruminar as suas maravilhas, pobres não sabem que este mundo não é mais o mundo de my baby. Jogado na terra, à margem da metrópole eu compro seu carro compro ouro pamonha gasolina capas p/ sofá trago de volta a pessoa amada amanhã em 3 dias em 3 dias 33 dias 3 dias 333 jogado na terra não há onde ir de que se riem os desdentados? Eu não entendo nada eu entendo tão pouco eu venho de longe eu sou magro gosto do cigarro Hilton eu solto pipa na rua de terra, eu mesmo desdentado só choro durmo evacuo como poucos, o seu útero quente é vácuo, brilhante auréola morada predileta faz tanto tempo e eu arranco um fio de cabelo. Eu chego assim em corpo aos subterrâneos me aguardam as cigarras debaixo da terra, no frescor da terra, pela hora de voar, eu me torno mais feliz quando retorno (mas para que, mas para onde?). Postado por Camila às 03:44 1 comentários Marcadores: livro, mimi e pompom Assinar: Postagens (Atom)

Alarme transparente Luiz Guilherme Barbosa*

Quando lemos o primeiro livro de um poeta desejamos sempre localizar sua diferença, em busca de um esboço da singularidade da obra que começa. Os livros seguintes experimentarão novas formas, novos tons – matizes, mas podemos começar a reconhecer no primeiro livro aquele estilo, modo único de esbarrar nas palavras, do qual o poeta não terá como abdicar. Fernando Rodrigues, em seu “livro (precário)”, imprime, já no título, a metamorfose de seu próprio nome como quem buscasse, pela poesia, corrigir a nomeação de si: Fordismo de um só, título isométrico e isorrítmico ao nome do poeta, com a semelhança das respectivas primeiras sílabas, ainda traz, colada à capa de cada exemplar concebida por Ícaro Lira, uma fita adesiva vermelha e transparente atravessando verticalmente o mapa da zona sul carioca. Por essa fita, sua poesia apresenta-se como uma espécie de gesto para a transparência do alarme para o qual o verso “uma sirene que grita de dor” é emblemático. A articulação das epígrafes de Deleuze & Guattari e Caetano Veloso anuncia poemas sob o signo dos insetos, o que implica a inserção da obra numa poesia que propõe o poético pela reversão: em lugar da vocalização melodiosa e metafórica dos pássaros, são as fricções sonoras dos insetos que imprimem uma tatilidade à voz capaz de evidenciá-la por si mesma. A disposição dos títulos dos poemas, registrados na parte inferior das páginas, somada a uma tendência à contenção na distribuição de versos por estrofe, valoriza a visualização das palavras, contribuindo para uma maior plasticidade da leitura. As fricções dos insetos, nos poemas de Fernando Rodrigues, ocorrem incessantemente pela mescla de diferentes níveis de linguagem, não sem humor. Há, por um lado, uma babelização da linguagem, que tanto reflete línguas, livros e canções (inglês, espanhol, latim, francês) quanto experiências linguísticas do cotidiano da cidade, como no título de poema “Gógol no google”. Estruturas próprias da fala são bastante recorrentes, tanto construções sintáticas quanto interjeições. Somem-se a isto as sequências sonoras de caráter cômico – ou melhor, as tiradas vococômicas –, as colagens de versos e de slogans, as rimas, neologismos e o mecanismo palavra-puxa-palavra que conhecemos de outra poesia. As melhores passagens desta poesia são aquelas que buscam a simultaneidade deste universo de referências: “fiat punto / você no controle // êpa // punctum” ou “mas agora pensolto / olharalém que se encaminha prum fade-out” ou “veja na enciclopédia livre / den fria encyclopedin // livre, fria: sugestivo, não? // não?”. Estes e outros versos parecem insistir num nivelamento discursivo entre palavras, neologismos, referências, línguas, tons que retira seu humor justamente da diferença de origem dos discursos. Fordismo de um só (ou Fernando Rodrigues) constrói-se como passagem dos fragmentos na linha de montagem composta por única etapa que, por isso, só pode construir objetos inacabados. O ótimo prefácio de Lucas Parente já o reconhece: “E tudo isso citação: apontamentos – mistura de atos (apontar e anotar ao mesmo tempo)”. O poema “Ventilador toma partido de ‘Mundo mundo vasto mundo’” termina com os versos “cê pega o que já existe / (pois tudo já existe) // cê pega isso tudo e movimenta / sabe? assim quero meu poema”. A coesão deste “isso tudo”, aquela mescla discursiva, é dada pelo tom enunciativo da fala. É ele que permite a sustentação de versos tão vazios semanticamente como “tá bom / taco água na goela // o quê? // nada, não”. A beleza da precariedade de certas passagens como esta, além de apontar para o sentido exclusivamente contextual de tais versos, reside na relação que esta poesia estabelece com o acaso. O poema liminar de Mallarmé (Un coup de dés jamais n’abolira le hasard) representaria uma questão resolvida em versos para este Fernando que “nunca deu certo como poeta concreto”, segundo a nota biográfica presente no livro. No poema em prosa “Mercado negro”, lemos: “não tomo partido do acaso – todo livro o prova. não tomo as rédeas – meu cavalo voa. se não há trajeto, não interpreto. memória: função inútil.” De fato, a função das referências presentes no livro não se confunde com aquela função própria da memória – a lembrança. Do pássaro ao inseto, são as associações da memória que interessam como modo de, movimentando “isso tudo”, nivelar discursivamente passado e presente, referência e neologia. Tomar partido do acaso já é, de algum modo, perder-se na ilusão de controlá-lo. Talvez possamos pensar que esta fixação da voz poética pela fala como modo de lidar com a contingência do poema e como modo de articular a mescla dos registros discursivos situa Fernando Rodrigues numa sutil confluência entre aquela poesia dos elementos cotidianos do nosso Modernismo, os poemas performáticos de Waly Salomão (presença na dedicatória e em pelo menos um dos poemas) e a absorção da memória cultural pelo poema própria da obra de Haroldo de Campos (que aparece pelo menos em uma das epígrafes). Os poemas de Fernando Rodrigues nunca perdem a consciência do artifício: “simulacro do aleatório”, desejam abarcar tudo no esquecimento do que tudo seja. Por isso seu alarme é transparente, em vez de absoluto e estridente – poesia, alarme de si própria, pois tudo que “sopra na janela, vem de volta / composto de acaso emaranhado / cujo intervalo é branco nada”.

gente, porque sou vaidosa

fiquei pensando se não mudo a foto vcs estão tão bonitos... leonardo, nos conhecemos no rio em 2005, e nesse rio desse ano comprei o vilas-matas um puta escritor. lá venho eu com a frase mágica: eu escrevi um artigo sobre esse livro e o fernando pessoa em 2007 se interessar eu mando adoro o vilas-matas um pena, queria estar no rio buena onda e me encontrar com vcs emily dickinson: "Se ando a ler um livro e ele torna todo o meu corpo tão frio que parece que nunca lume algum poderá, alguma vez, voltar a aquecê-lo, sei que é poesia. Se eu sinto, fisicamente, como se o alto da cabeça me estivesse a ser arrancado, sei que é poesia. São estas as duas maneiras de que disponho para saber. Haverá outras?" (p.57). bez
Bem, quanto a juízo de valores, não faço nenhum. Faço o juízo mais cretino ainda, que é o do gosto e o da vontade. Eu gosto de boa literatura. Independente de assunto. O fato é que a maior parte dos escritores de não-ficção estão mais preocupados com literatura do que os escritores que escrevem teses. Talvez isso seja até um fato. O meu problema é quando começa a se julgar um texto como ideia, como argumentação, e não como texto. As pessoas que escrevem texto, seja sobre uma tribo de índios ou sobre um personagem inventado, estão concorrendo na mesma categoria. Espinoza está concorrendo na mesma categoria que Tostoi. E é isso aí. Se você me perguntar quem é melhor literatura, eu vou te dizer que, EU ACHO, o Totó. E é ele que eu vou ler, pois me dá mais prazer. Hedonista que eu sou. A boa argumentação e as boas ideais não fazem bons textos, necessariamente. Textos são uma forma de arte, e os textos sobre arte só são bons quando eles próprios são arte. Falando de cultura popular...Eu não consigo entender "o povo" sem estar inscrita nele. Eu sou a porra do povo. Todo mundo é o povo. Não entendo "o povo" como as massas sujas que passam a vida na condução ou no serviço. Vai ver que não entendo simplesmente porque não quero entender. Vai ver é verdade e eu sou cega. Quando eu falo de cultura popular é lógico que eu gosto mesmo é de ligar o "erudito" e o "popular". E, assim, desfazer os muros entre essas duas coisas. Entender o "popular" com boa vontade é uma cretinice. Querer justificar o funk antropologicamente é uma idiotice. Ninguém justifica Bach antropologicamente - o justificam como música. Então porque não justificar o funk como música também? Tudo que pobre faz precisa ser estudado sociologicamente? Não se pode estudar as letras de Caymmi e Roberto Carlos da mesma forma que se estuda Guimarães e Lautreamont? Pq não? Você pode, com as ferramentas certas, estudar futebol e samba pelo resto dos seus dias e descobrir tudo que é possível saber sobre a natureza humana. Eu acho que é um erro pensar que todas as manifestações culturais populares são desprovidades de pensamento, de arquitetura, que são espontâneas e ingênuas. Claro que não. Demoram gerações e gerações para serem concebidas. Gerações e gerações. O que me incomoda é o eterno embate entre o popular e o erudito, essas oposições todas. As oposições me incomodam, de forma geral. Isso ou aquilo, aquilo ou isso. É tudo a mesma merda. Todo mundo tem que pensar. Tudo é pensamento, é lógico, o meu discurso, se é que é um discurso, não está negando isso. Mas vamos pensar sobre o que nós estamos pensando, e pq não estamos pensando em outras coisas. Tá, isso não fez sentido, mas eu não sou uma pessoa que constroi o pensamento de uma forma muito consciente. - Mostrar texto das mensagens anteriores -
Só mai um pouco: sobre a relação entre a obra poética e as leituras do poeta, leituras nem sempre de obras poéticas, basta a gente lembrar da série de três filmes do Ícaro sobre as -péias do Ezra Pound.
Queridos, continuo a discussão porque acho que se a gente souber aproveitar esse tipo de oportunidade, sem mesquinharia, sem eguinho, a gente pode crescer muito. Antes mesmo que leiam, peço respostas, porque me arrisco num terreno perigoso. É o seguinte: O Waly diz que o poema deve ser uma festa do intelecto. Isso não iguala o poema a uma dissertação de mestrado, essa seria uma auditoria fiscal do intelecto. Mas é uma festa do intelecto, ou seja, o poema não deve abolir a reflexão. Sim, aprendo tanto com o Carlo Ginzburg quanto como Perceval, tanto com Deleuze quanto com Kafka, não vejo sentido em separar a obra poética da aquisição de conhecimento. Toda obra traz uma tese por trás, quer a gente queira, quer não. Para os bons observadores, isso é patente. A tese pode ser mais elaborada, mais próxima da criação (a poiesis propriamente dita) ou não, vincuculando-se nesse caso às verdades prontas, ao censo comum. Isso não é necessariamente um problema, porque há espaço para tudo no mundo, mas caimos inevitavelmente na questão dos valores. Particularmente, valorizo as obras que despertam resultados mais inusitados, mais originais, porque acredito que esse tipo de obra se aproxima mais do sentido originário da poesia, do seu sentido mais profundo. Essa originalidade não pode ser alcançada senão através de uma reflexão cuidadosa que ultrapassa o espaço do poema, uma reflexão de vida, sobre a vida, sobre as coisas e os conceitos, que também são coisa, talvez hiper-valorizadas, mas são coisas. Isso supõe um trajeto, uma paciência, um esforço, e não exclui a simplicidade, muito pelo contrário. Só acredito na simplicidade alcançada como resultado de um trajeto através da selva da complexidade, da obscuridade dos dados de realidade. Todo bom livro analítico prova isso: primeiro o autor se depara como um bocado, uma imensidão de dados embaralhados, depois vai organizando eles até chegar a uma fórmula simplérrima. Uma simplicidade que não reconheça o complexo não é legítima. Aliás, só acredito nas coisas que reconhecem seu contrário. Uma pessoa só sabe o que é a delicadeza depois de conhecer a brutalidade. Uma delicadeza que não reconhece a brutalidade é fake, pose, código de distinção, e não um estado que se alcançou e que se buscou. Daí a importância da errância, do trajeto. Daí o perigo de nos precipitarmos em conclusões apressadas e inevitavelmente capengas. E isso não é uma coisa à toa, essa é a origem do totalitarismo. Exemplo: homossexualismo é contra Deus. Resposta rápida, resultado nefasto: pode-se investir contra os homossexuais com o apoio da instituição telúrica que representa o poder de Deus, a igreja. Isso acontece muito nas Igrejas Universais da vida. Suprimir o trajeto é perigoso, muito. É a questão do estímulo eda resposta: prolongar o trajeto entre um e outro é uma forma de aprimorar a resposta, de torná-la mais satisfatória. A simplicidade que não reconhece a complexidade, a identidade que não reconhece a alteridade, tudo isso só pode degenarar em incompreensão e silêncio, e não se trata do silêncio do Antonioni, e sim do silêncio do Geisel. Não um silêncio pleno, um intervalo natural entre duas coisas, mas de um silêncio imposto, que suprime a possibilidade de inovação das coisas. Quanto à questão povo, é bom que a gente preste atenção no fato de que na grande maioria das vezes, sua simplicidade não é uma opção estética, mas o resultado da impossibilidade de um auto-cultivo. Não é uma liberdade, mas um cerceamento. Trazendo pra vida cotidiana, falo da galera que trabalha comigo. Muitos deles são inteligentérrimos, mas dedicam oito horas por dia a atividades inúteis, como ficar em pé na porta da livraria evitando que afanem os livros que deviam mais era liberar pra afanação. Isso fora três horas que gastam indo e voltando do trabalho. Têm um fim-de-semana por mês. Ganham em torno de 600 reais. E muitos, a maioria, bancam essa rotina desde bem novos: quatorze, quinze anos. Eles não têm muita oportunidade pra ir além de samba e futebol, quase nenhuma. E não falo da relação entre salário e valor de livro, enfim. Foi mal, galera, não queria pesar com esse discurso sociológico. Acho sociologia um saco, mas se a gente não prestar muita atenção nessas coisas, corre o risco de tratar equivocademente a idéia de simplicidade, tendo o povo como guia, lembrando sempre do povo, mas sem olhar nem por um instante pra ele. Tudo vira fetiche, uma coisa fria, distante e fragmentária. Todo mundo tem o direito de ter fetiches, tenho vários, mas acho que quando a gente traz eles pro nosso trabalho, acho que a gente deve manter eles sempre bem vigiados, pra que não assumam mais poderes do que lhes cabem. Ainda sobre a questão simplicidade/povão: vejo dois paradigmas na releção entre arte e cultura popular. Um é o Nelson Rodrigues, outro o Guimarães Rosa. Gosto do Nelson, o Vestido de Noiva é fodaço, mas na maioria da obra acho que ele trabalhou com o que no povo fecha: o moralismo, a neurose familiar. Já o Guimarães trabalhou com o que no povo abre, no que nele é criatividade, afinal de contas ele é a grande fonte mesmo. Seu escopo são as fábulas (não moralizantes, mas como paradigmas ficionais), a inovação linguística, a sabedoria de vida, outra coisa. Desabafei... Por enquanto é só. Beijos.
Pensei em me juntar a vocês, mesmo sem convite....mas tem jogo do Mengão e depois vou no show do Drexler.
Ícaro, me passa o contato do ópio, e anota o número: 9100-8208. estarei bebendo mais tarde, início de noite, num boteco em Botafogo. então eu consegui te enganar, foi? eheh... abraço,

azul

. video-poema de iuri nicolsky para fernando rodrigues

domingo, 28 de junho de 2009

presta atenção nisso: "Já não olho nos olhos da mulher que tenho em meus braços,mas os atravesso a nado, cabeça, braços e pernas por inteiro, e vejo que por detrás das órbitas desses olhos se estende um mundo inexplorado , mundo das coisas futuras, e desse mundo qualquer lógica está ausente... O olho, liberado de si, não revela nem ilumina mais, ele corre ao longo da linha do horizonte, viajante eterno e privado de informações... Eu quebrei o muro que o nascimento cria, e o traçado de minha viagem é curvo e fechado, sem ruptura... Meu corpo inteiro deve tornar-se raio perpétuo de luz cada vez maior... Selo, então, meus ouvidos, meus olhos, meus lábios. Antes de me tornar novamente homem, é provável que existirei como parque... Henry Miller. Tropique du capricorne. Chêne, p. 177. . ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Em seu rosto e em seus olhos sempre se vê seu segredo. Perca o rosto. Torne-se capaz de amar sem lembrança, sem fantasia e sem interpretação, sem fazer o balanço. Que haja apenas fluxos, que ora secam, ora congelam ou transbordam, ora se conjugam ou se afastam Um homem e uma mulher são fluxos. Todos os devires que há no fazer amor, todos os sexos, os n sexos em um único ou em dois, e que nada têm a ver com a castração. Sobre as linhas de fuga, só pode haver uma coisa, a experimentação-vida. Nunca se sabe de antemão , pois já não se tem nem futuro nem passado. "Eu sou assim", acabou tudo isso. Já não há fantasia, mas apenas programas de vida, sempre modificados à medida que se fazem, traídos à medida que se pois já não se tem nem futuro nem passado. "Eu sou assim", acabou tudo isso. Já não há fantasia, mas apenas programas de vida, sempre modificados à medida que se fazem, traídos à medida que se aprofundam, como riachos que desfilam ou canais que se distribuem para que corra um fluxo. Já não há senão explorações onde se encontra sempre no oeste o que se pensava estar no leste, órgãos invertidos. Diálogos com Claire Parnet, Gilles Deleuze pronto tudo está dito